Opinião
Boa noite, meus senhores todos
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“Boa noite, meus senhores todos, boa noite, senhoras também. Somos pastoras, pastorinhas belas, alegremente vamos a Belém.”
Com origem na Europa, o Pastoril chegou ao Brasil no século dezenove e se instalou no Nordeste, transformando-se em um dos principais folguedos natalinos, colírio para os olhos, acalento para o coração. Eis que surgem as pastoras. A Mestra, comandando o cordão encarnado, a Contramestra, o azul e a Diana, os dois cordões. Vem à lembrança o pastoril da Catedral Metropolitana de Maceió, um dos mais concorridos da capital, visita obrigatória para os amantes do folclore e da cultura popular. O salão paroquial ficava repleto de admiradores. Todos queriam assistir as belas pastorinhas que graciosamente cantavam e dançavam as jornadas, com evoluções que variavam de acordo com o tema. As torcidas do encarnado e do azul vibravam harmonicamente até a hora em que as pastoras eram convidadas a entrarem em cena para receber os agrados em forma de dinheiro. A disputa tornava-se acirrada, cada um querendo dar mais para levar seu cordão à vitória. Para acalmar o embate, chamavam a graciosa Diana, representando os dois cordões, agradando a todos indiscriminadamente. A borboleta, bela e faceira saltava de um lado para o outro, arrancando aplausos da multidão enquanto os pastores, meio acabrunhados, assistiam a tudo discretamente, acompanhando as jornadas que se sucediam sem interrupção. Recordo com muita saudade dos encontros mensais que aconteciam no apartamento de minha querida amiga Selma Brito. Encontros de cultura e arte, música, canto e poesia. Ela, executando magistralmente inesquecíveis peças musicais em seu piano de caldas, que também era visitado por Zailton, Dida Lira e, até por mim, sempre ousado e atrevido, metido no meio de tantos artistas. Vozes, do popular ao erudito, declamadores como Neilda e José Marcio, enriqueciam aqueles inesquecíveis e saudosos saraus. Acompanhados por vários instrumentos, violão, cavaquinho, clarinete e percussão, tocados por Welligton, Coronel Claudio, Zailton, Beron, Washington , Luizito, dentre tantos outros grandes nomes da música alagoana que lá estivessem presentes, belas canções eram revisitadas e a música era a rainha da noite. A lembrança da casa de Selma me veio com o pastoril. Vez por outra, Soninha, sua Irmã, vestida de borboleta, juntamente com o grupo de amigas, comandadas pela inesquecível Neilda Cavalcante relembravam e dançavam o pastoril, criando momentos de encantamento e alegria. As fantasias já faziam parte do acervo de Selma, sempre prontas para serem usadas e a magia do momento não deixava sequer transparecer o improviso do figurino. Parecia que estávamos no Natal, na Catedral, assistindo ao seu pastoril, vibrando com aquele folguedo tradicional, tão representativo para a cultura da nossa terra e incrivelmente vivo em nossas memórias. “Adeus, é tarde, queremos partir, o dia amanhece, queremos dormir”.