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Opinião

A vida e o poema

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EDUARDO BOMFIM * Quando mais moço, como se expressa a juventude, nunca freqüentei a sua praia. Eu pertencia a um outro tipo de geração que se embrenhou na luta contra o regime militar e pelos ideais de libertação nacional e social do povo brasileiro. Portanto, apesar de acompanhar atentamente os movimentos culturais e artísticos em geral, jamais fui um adepto do chamado Tropicalismo. Havia inclusive, na época, grandes polêmicas, confrontos acirrados de idéias sobre a cultura e a resistência ao arbítrio e ao imperialismo. Aliás, para o bem desta mesma luta, o combate teórico retorna agora, neste campo, com toda a intensidade, após um largo período de hegemonia do neoliberalismo. Refiro-me ao poeta, compositor, jornalista, cineasta Torquato Neto, morto em novembro de 1972. E descubro, por meio de ?um poema postal? da Fundação Cultural do Piauí, onde o artista nasceu, uma obra em verso intitulada ?Poema do Aviso Final?. Através desta, constato mais uma vez que a ditadura, por várias formas, ceifou vidas, mutilou almas, desesperou outras e, acima de tudo, castrou a possibilidade do amadurecimento de inúmeros talentos em nosso país. O ?Poema do Aviso Final? é ao mesmo tempo, uma bela denúncia daqueles tempos dramáticos, mesclado com uma furiosa sensação individual de impotência diante do asfixiante processo histórico que o levou ao suicídio. Veio a derrota da reação e a vitória dos setores de esquerda, patrióticos e desenvolvimentistas, apesar dos confrontos intestinos em uma frente ampla e contraditória, onde a nossa tarefa decisiva tem sido contribuir para os caminhos do crescimento econômico, soberania nacional e profunda justiça social. Mas os saques após o incêndio da Central de Abastecimento do Rio de Janeiro demonstram a tragédia social vivida pelas amplas massas dos trabalhadores e excluídos em geral. Milhares de pessoas enfrentando o fogo e rescaldos fumegantes em busca de alimentos misturados com areia, cinzas, sob escombros ameaçadores. Os relatos eram pungentes e sem conversa fiada, ?seja lá como estiver a comida, estes dias vamos ter o que comer lá em casa?. Os corpos encardidos de cinzas e água das mangueiras dos bombeiros. Só os dentes se destacavam. Literalmente, uma verdadeira alegria incendiada. Foram imagens mostradas para todo o Brasil e em cores. Um fiel retrato da miséria nacional. Esta é a herança que herdamos dos oito anos do governo Fernando Henrique, acumulados com séculos de concentração de renda brutal, à exceção de alguns momentos históricos de governos nacionalistas voltados para o desenvolvimento social, mesmo assim insuficientes alguns e outros abortados pela tirania. Retorno ao Torquato, de uma geração atingida em cheio, na carne, pela tortura, exílio, clandestinidade e outros, no fígado..., parodiando Antonio Skármeta, escritor chileno, autor de ?O carteiro e o poeta?. Diz o poeta tropicalista que ?é preciso que haja alguma coisa alimentando meu povo. Uma vontade, uma certeza, uma qualquer esperança... É preciso que haja algum respeito, ao menos um esboço ou a dignidade humana se firmará a machadadas?. Quantos talentos como ele não sucumbiram ao desespero ou na falta da perspectiva transformadora da sociedade? De qualquer maneira, seu poema é de uma atualidade certeira e a sua veia artística inquestionável. Roubaram-lhe o tempo do amadurecimento. Mas a sua denúncia é viva e a luta é tremendamente atual. (*) É ADVOGADO

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