Opinião
PIB na berlinda
Em janeiro deste ano, as autoridades econômicas do governo federal projetavam um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano da ordem de 2,8%. Em março, as projeções foram ajustadas para algo situado entre 1,8% e 2,2%. Em junho, o Ipea (instituto ligado ao Ministério do Planejamento) fez outro ajuste para 1,6%, e, em setembro, reduziu mais ainda: 0,5%. Inconformado, o Ministério do Planejamento divulgou nota estimando o crescimento em torno de 0,98%. Nesta semana, vieram a público as divergências entre os ministérios da Fazenda e do Planejamento sobre a taxa de crescimento do PIB brasileiro para este ano. Enquanto a Fazenda divulgou previsão de 0,4%, o Planejamento estima o dobro: 0,8%. O titular da pasta, Guido Mantega, ironizou as previsões da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda: ?Foi um pouco pessimista? e feitas num momento de ?mau-humor?. Se o crescimento do PIB será o preconizado pela Fazenda ou pelo Planejamento é irrelevante. O preocupante é ver as autoridades que detêm as informações globais sobre o desempenho da economia brasileira, cometerem erros desta magnitude, pois na melhor das hipóteses o PIB terá crescimento de menos dois terços da previsão inicial. Não existe mágica nem milagre na economia, embora muitos no governo pareçam acreditar que sim. Só assim se explica o otimismo (ou voluntarismo) de certos setores do governo, que projetaram crescimento acima da capacidade de reação da economia brasileira, engessada por uma política econômica baseada nos juros altos e restritiva ao crescimento econômico. O governo federal colheu o que plantou este ano: baixa taxa de crescimento (uma das menores taxas da última década, cuja característica principal é justamente a expansão pífia da economia); taxas recordes desemprego e perda de renda real dos trabalhadores. Neste quadro, chega ser patético, se não tivesse influências reais na sobrevivência de milhões de brasileiros, a discussão kafkaniana dentro do governo sobre a previsão de crescimento(?) do PIB brasileiro de 2003.