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Vana verba

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RONALD MENDONÇA * Infelizmente, estudei latim apenas dois ou três anos no meu curso ginasial. Não deu nem para tomar um gostinho, porque as autoridades da época o sacaram do rol de matéria obrigatória sob o incontestável argumento de que era uma língua morta e, portanto, estudá-la, seria uma perda de tempo. Acho que, no mesmo decreto, os notáveis da educação também retiraram o espanhol do currículo baseados não sei mais em que. Permaneceu o ensino do inglês e do francês. Agora me lembrei. O espanhol foi retirado sob a justificativa de, em sendo uma língua tão parecida com o português, seria uma redundância cultural, digamos melhor, um esforço inútil obrigar os alunos a estudarem matéria tão fácil, o que talvez fosse um estímulo à malandragem. Eu não sei se essas supressões foram boas, mas a dúvida quase some quando eu me lembro das aulas de latim com todas aquelas declinações, do irmão Vicente com aquele sotaque enjoado numa vozinha de falsete, a repetir, ?...o latim não se decora, o latim se compreeeeende.? Ah! Cara intragável. No ano seguinte, foi a vez de um ex-seminarista cheirando a mofo. Era um sujeito desprovido de qualquer senso de humor, mignon, todo contido numa roupa apertada, cheio de maneirismos, a querer nos empurrar goela abaixo as fábulas de Phedro. Mas o latim perseguia. Numa época em que as diversões reduziam-se a uma pelada, visitas escondidas aos sítios alheios e banho no Né Fragoso, os meninos eram praticamente impelidos à leitura ?séria?. E lá estavam no rodapé, ou entre parênteses, a tradução das citações latinas dos textos. Leitor assíduo das suas crônicas na GAZETA, vez por outra, meu primo a fim Paulo Silveira sapecava uma frase em latim, nem que fosse para fazer uma gozação. Dividido entre a beatitude da vida eclesiástica e a profana medicina, tendo optado pela segunda, mesmo assim, o contato com o latim não foi pequeno. Da taxonímia anatômica aos belos textos que os antigos médicos criaram, rendi-me definitivamente aos seus encantos. Hoje, não sinto a menor vergonha de dizer que sei de cor quatro ou cinco frases. Um pequeno dicionário só de expressões completa o serviço e ajuda a fazer de conta que sei mais. A propósito, Vana verba era o título de uma coluna assinada por Austragésilo de Athaíde na falecida revista O Cruzeiro. De modo algum quer dizer que as verbas da saúde para o município de Maceió estão indo de van para o interior. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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