Opinião
UM RESGATE HIST�RICO
JOSÉ MEDEIROS * Foi Joaquim Nabuco, escritor e diplomata, no início da República, quem chamou a atenção para o fato de que a Lei Áurea apenas aboliu oficialmente a escravatura. A liberdade não foi acompanhada por ações de educação. Relembro esses fatos porque passados 120 anos da instituição dessa lei, o presidente da República assinou decreto instituindo a ?Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial?. Com esse ato reconheceu que há racismo subjacente na sociedade brasileira, nas desigualdades de oportunidades de trabalho e na percepção de renda. Outros empenhos seguem essa linha de pensamento como a cota para negros nas universidades e a propalada introdução de disciplinas sobre ?História da África?, nos currículos escolares. O que chama a atenção é que o Brasil evoluiu de forma acelerada em muitos setores e, nesse aspecto social, está aquém do que deveria ser. E não há como negar tais fatos, como fazem alguns, que defendem a existência de uma total democracia racial brasileira. Recentes pesquisas mostram que apenas diminuiu o preconceito racial. De acordo com esses estudos ?74% das pessoas entrevistadas manifestaram algum tipo de posição racista quando confrontadas com a possibilidade de ter um chefe negro ou aceitar um casamento inter-racial?. Quando se lê a obra de Arthur Ramos, um cientista alagoano cujo centenário foi comemorado este ano, chama a atenção a apaixonada defesa que faz da igualdade das raças, principalmente entre a branca e a negra. Isso nos idos de 1933, quando era forte a corrente que defendia a inferioridade da raça negra. Um ?balde de água fria? foi posto nesse assunto pelo escritor Gilberto Freire: levantou a tese de que a miscigenação racial brasileira era uma experiência bem-sucedida, impedindo que lutas racistas tivessem curso. Os movimentos negros, ao longo do tempo, fizeram um minucioso trabalho de conscientização de seus direitos. Arthur Ramos foi incisivo em seu livro O Negro Brasileiro: ?Não há raças superiores nem inferiores e sim adiantadas e atrasadas. É a opressão econômica, com todas as condições deficitárias de educação, de bem-estar material do meio, que geram esses grupos sociológicos, desiguais em cultura?. Esse e outros estudos abriram caminho para novas pesquisas sobre a extensa contribuição negra na cultura brasileira, na música, na alimentação, no artesanato, na religião, além de influência nos costumes. Um fato curioso que testemunhei demonstra a luta dos negros americanos pela igualdade no trabalho. Em 1976, realizava um curso nos Estados Unidos, quando, na cidade onde me encontrava, foi a construção do metrô, subitamente, interrompida. Motivo: falta de paridade entre brancos e negros nos escalões da obra. Havia igualdade de número de trabalhadores na construção, no plano administrativo, de engenharia e arquitetura. Não havia equivalência entre o número de pessoas negras e brancas na equipe superior de planejamento e supervisão. A obra somente foi reiniciada quando contrataram pessoas negras com essa qualificação. A luta contra o preconceito será vitoriosa através da educação, que assegura liberdade e afirmação. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE