Opinião
REALIDADE FRUSTRANTE
RUYTER BARCELOS * As viagens internacionais do presidente da República não são apenas o exercício, pelo Brasil, da diplomacia de chefes de Estado e governo, característica das relações internacionais nas últimas décadas e uma prática hoje comum entre os estados. Elas traduzem, também, uma estratégia deliberada de se valer dos encontros de cúpula, com sua capacidade única de mobilizar meios governamentais, a imprensa e a opinião pública, para promover uma atualização da presença externa brasileira no mundo. É neste contexto que se deve entender a recente viagem do presidente ao continente africano. Dentro da Geopolítica, alguns conceitos devem ser ressaltados, como a posição privilegiada que África e Brasil ocupam no Atlântico Sul, pois as grandes rotas de navegação passam por estas águas; o estar presente no outro continente projeta o poder nacional de um país; e, a extensão territorial que assegura um amplo litoral e base física invejável no contexto mundial, principalmente se dimensionadas as múltiplas possibilidades de recursos naturais e biodiversidade, não só em quantidade como em qualidade, aspectos que, atualmente, são vitais para a sobrevivência de uma nação. É constatação que, enquanto o Brasil tem má distribuição da produção nacional, a África sofre a escassez devido à insuficiência da produção, que não atende às necessidades da população. Diante da realidade atual, é fato que o Brasil tem elevado potencial nacional, mas encontra dificuldades econômico-financeiras para transformá-lo em um poder nacional capaz de solucionar suas chagas sociais ? cerca de um quarto da população vive na linha da pobreza, segundo institutos de pesquisa. Em piores condições encontra-se a África, onde, em vários países, não há poder nacional e a população agoniza diante da fome e da Aids. Além disso, os países da África têm passado por sucessivas crises institucionais, guerras e flagelos. Não se pode explicar a relativa indiferença mundial sobre o futuro do povo africano. Mais ainda, enquanto se gasta bilhões de dólares para fazer uma guerra, por que não socorrer os africanos? O Brasil conhece a realidade daquele povo, pois esteve em Angola e Moçambique com contingentes militares em missões de paz e mantém atividades comerciais em vários outros países. Assim, de alguma forma, tem contribuído para a recuperação das condições mínimas de vida daquela gente, mas são esforços que se perdem diante da magnitude do problema. Não se desconhece que o nosso País tem, também, outros interesses naquele continente. A comunidade dos países africanos representa quase um quarto dos votos da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e pode ter peso específico representativo nas aspirações brasileiras de obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Mais ainda, os interesses comerciais são significativos, principalmente no setor de serviços, onde as carências africanas são maiores. Contudo, a possibilidade de investimentos fica restrita à capacidade de pagamento, condição que hoje poucos países africanos possuem dadas as condições socio-econômicas adversas. Por outro lado, o próprio Brasil tem limitada capacidade de financiar as compras africanas. Então, como ajudar a África? Resta apenas mais uma retórica presidencial, agora sobre a solidariedade brasileira para com aqueles que ajudaram na formação da nossa nacionalidade. (*) É OFICIAL DA RESERVA DO EXÉRCITO