Opinião
Avan�os e incertezas
MARCOS DAVI MELO * Quando começamos a exercer a oncologia em Maceió, cerca de 28 anos atrás, embora a doença fosse a mesma, o câncer, com toda sua complexidade etiológica e as inúmeras dificuldades inerentes ao diagnóstico e aos tratamentos, as coisas eram muito mais simples. Sim, primeiro porque os pacientes eram ou do antigo Inamps ou os indigentes, uma parcela considerável dos que eram atendidos na Santa Casa de Misericórdia de Maceió, cujo tratamento, por mais custoso que fosse, não tinha nenhum ressarcimento. Segundo, porque os procedimentos que utilizávamos eram infinitamente menos complexos e, principalmente, menos onerosos que os atuais. Embora as cirurgias destinadas a ressecar os tumores cancerosos fossem mais extensas que as praticadas atualmente, o uso de UTIs era muito menor, a quimioterapia utilizava algumas poucas e relativamente baratas drogas e, principalmente, a radioterapia era feita com a Bomba de Cobalto, um equipamento com limitações, mas eficiente e de manutenção barata. Quando precisávamos fazer a braquieterapia (colocação do material radioativo dentro dos tumores), usávamos o Cesium 137, um elemento radioativo de custos de aquisição e manutenção baixos e que proporcionava trinta anos de uso contínuo. Hoje, usamos o Iridium 126, um elemento radioativo de altos custos de aquisição e manutenção e que dura apenas três meses! Atualmente, podemos afirmar com convicção que estamos com equipamentos de última geração, os mesmos dos maiores centros internacionais, a precisão dos tratamentos é enorme, mas cuja manutenção nos dá insônia. A quimioterapia multiplicou suas opções de drogas, algumas delas com o preço de uma ampola similar a um automóvel zero de pequeno porte. Podemos controlar e curar um número muito maior de pessoas com câncer, com efeitos colaterais insignificantes em relação a alguns anos atrás, mas isto tem um custo muito alto, que precisa ser coberto. Sim, porque investimos em equipamentos e em pessoal. A humanização dos tratamentos e o acompanhamento dos pacientes tratados, foram solidificados. Sim, porque por mais que estejamos bem equipados, o apoio, a solidariedade ao paciente com câncer e as suas famílias são fundamentais. Nisto ganhamos muito com o ressurgimento das atividades da Rede Feminina de Combate ao Câncer. Nesta semana, na qual comemoramos o Dia Nacional de Combate ao Câncer, sentimos mais que nunca que vamos precisar da sensibilidade e da visão maior das autoridades e da sociedade para continuarmos o nosso trabalho. (*) É MÉDICO