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Gatos e gafanhotos

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RONALD MENDONÇA * O cenário é dos anos 20. Já aposentado, diariamente, o professor Lima encasacava-se, pegava o trem em Maceió e ia dar aulas a três garotos abastados, numa fazenda do interior. A remuneração de primeira justificava o sacrifício. Um dia, a matriarca ouviu da boca dos filhos a reprodução de insólita história dando conta de que o encanecido Lima havia embolsado uma moeda perdida no trem, depois de escondê-la sob o pé, numa marota manobra para evitar que o aflito dono a encontrasse. Horrorizada, a fazendeira cobrou do marido a imediata dispensa do velho lente sob o argumento de que alguém com semelhante conduta não tinha a menor condição de ensinar aos seus rebentos.Esse relato de fato verídico apenas o nome do ladino professor é falso - nos chegou depois dessa cascata de denúncias que pipocaram na imprensa nos últimos dias. Primeiro foram os ?gafanhotos? (aos que não sabem, é a versão amazônica do ?laranja?) de Roraima que teriam causado, ao longo de alguns meses, um estrago nas finanças daquele Estado de cerca de 230 mil ou milhões de reais, tudo sob o comando do primeiro escalão do governo. Há indícios de omissão do próprio governador. Depois, o escândalo foi bater à porta do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Maurício Correia, acusado de atropelar as leis trabalhistas e, de quebra, cuspir no Estatuto das Crianças e Adolescentes, mantendo sob a inclemência do sol do planalto um menor como auxiliar de jardineiro, mediante pagamento vil. Finalmente, há 3 dias as folhas da província escancaram que 20% das residências de um condomínio de classe média alta (?pobre classe média?!) surrupiam energia elétrica através do ardiloso expediente conhecido como ?gato?. Fala-se que a descoberta irá gerar uma receita adicional de 2 milhões para a Ceal. Dou toda razão ao leitor que nesse momento mudar de página por achar que esses assuntos já estão tão batidos, que não vale a pena a gente gastar com eles tinta e espaço. É que os tempos andam tão malucos que ninguém mais tolera discurso moralista. Por outro lado, quem de sã consciência imaginaria, por exemplo, o ministro Correia, com aquela cara de homem sério e todo aquele blablablá jurídico (hoje, só Márcio Bastos o supera), dando dribles-de-corpo na Lei? A grande verdade é que de tanto levar ?olé?, a moral perdeu a vergonha. Do tostão do velho Lima aos gatos e gafanhotos. (*) é médico e professor da Ufal

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