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Opinião

Cruel desigualdade

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LUCIANO SIQUEIRA * O Brasil exibe diversidade e desigualdades regionais sob tantos aspectos quantos sejam os ângulos sob os quais se lhe examine a realidade. A diversidade em si mesma não é um problema, antes nos enriquece como nação ? especialmente nos muitos modos como se expressa a cultura do povo. Mas as desigualdades desnudam uma sociedade dividida entre poucos que muito possuem e a maioria que possui quase nada. Dia desses, reportagem do Diário de Pernambuco, do Recife, trouxe-nos um dado um tanto curioso (e cruel). A cesta básica, tomada como referência do grau de inclusão dos mais pobres na vida social e como indicador de tendências inflacionárias, revela-se também elemento de demonstração das nossas desigualdades sociais e regionais. Vejamos um dos itens incluídos na cesta básica ? a carne. Para os gaúchos de Porto Alegre ? informa a reportagem ? o Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) estima que 6,6 quilos de carne/mês devam ser consumidos pelo trabalhador. Já em São Paulo, o consumo se reduz a 6 quilos/mês; e nos Estados do Nordeste, a apenas 4,5 quilos/mês. Trata-se apenas de uma estimativa. Nada garante que o trabalhador tenha condições de manter esse nível de consumo. Até porque, com seu achatado salário, tem que se virar para atender a outras necessidades, como leite, feijão, arroz, farinha, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga. Não dá. É por isso que no lugar da carne, na melhor das hipóteses entra o ovo ou uma lata de sardinha. Quando é possível.Não podia ser diferente, numa região em que 29,8% dos trabalhadores ganham até um salário mínimo, em contraste com o Sul (15,3%) e o Sudeste (13,5%), conforme dados de 2001 da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad). Aí se vê uma manifestação concreta do desenvolvimento desigual do capitalismo ? uma lei objetiva desse sistema ? que concentrou a produção, a renda e a riqueza no Centro-Sul e empobreceu, gradativamente as demais regiões do País, especialmente Nordeste e Norte. Desigualdade que se acentuou nos anos 60-80 e que persiste, embora se possa notar alguns bolsões de dinamismo econômico nas regiões mais atrasadas. O que reclama uma política nacional de desenvolvimento que contemple a dimensão regional mediante papel preponderante do Estado. Oxalá isso aconteça em breve, se o governo Lula ousar alterar o rumo atual da economia. (*) é vice-prefeito da cidade do Recife (PE)

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