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O baile da cria��o

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DOM FERNANDO IÓRIO * O mundo espacial é imprevisível Teatro, onde o Eterno Bailarino dança o baile da criação. É uma dança constante, de música silenciosa que dá ritmo e harmonia ao bailado das coisas finitas. Na Índia, todos conhecem a bela imagem para ilustrar o relacionamento entre Deus e Sua criação: Deus ?dança? a Sua Criação. Ele é o Bailarino e a Criação é a dança. Apesar de ser a dança diferente do bailarino, ela não pode existir sem Ele. No instante em que o bailarino pára, deixa a dança de existir. Só que o dançarino celeste jamais interrompeu o seu bailado, porque é esse continuar bailando que alicerça a conservação das coisas criadas. Na procura de Deus, pensa, reflete e filosofa demais o ser humano. Palavras, discursos extensos, resoluções até demais. Entretanto, faz-se necessário o silêncio. A Sabedoria está no simples olhar: o pássaro voando feliz, a folha saltitando no balanço do galho, a flor exalando perfume, a estrela tremulando no firmamento, as ondas do mar no seu cantochão constante de idas e vindas, o carinhoso murmúrio da fonte a correr... Todos esses componentes da criação podem ser úteis para o ser humano descobrir o misterioso bailarino que se vai revelando, como por encanto, através do olhar profundo, do ouvir constante, do tocar sereno, do provar, gustando de quantos fazem a platéia do teatro da vida. Certa feita, queixava-se o discípulo ao Mestre Zen: ?Você está me escondendo o segredo final, o segredo de Zen!? Assim falando, rejeitava as negações do Mestre. Um dia, levou-o o Mestre a passear; enquanto percorriam os dois as colinas, ouviram um pássaro a cantar. Então, pergunta o Mestre: ?Você ouviu o pássaro cantar?? ?Sim, responde o discípulo.? ?Pois bem, agora você sabe.? ?Sim?, disse o discípulo. Se o ser humano viu o pássaro, cantando ou voando, se viu a folha, trepitando no galho da árvore, se viu o vaivém das águas do mar, se viu tudo isso, sem precisar de palavras ou conceitos, desde então, na verdade, ele sabe divisar o bailarino. Sim, já vimos milhentas pétalas de rosas, centenas fontes, em murmúrio, um sem número de árvores frondosas, inumeráveis pássaros, trilando... Mas será que vimos, de fato, as árvores, os pássaros, as fontes, as rosas, ou somente os rótulos? Quando olhamos a rosa e vemos somente a rosa, não vemos, na verdade, a rosa. Mas, quando vemos a rosa e nela desvendamos o mistério, o milagre, então, finalmente, ficamos sabendo o que é a rosa. Será que, seres humanos, já nos enchemos, alguma vez, de maravilhas sem palavras, ao contemplar não só a rosa, mas o milagre e o mistério de uma rosa? Se isso acontecer, haverá esperança de que, sem muita demora, possa a humanidade ver o bailarino celeste dançando o bailado da criação. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS

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