Opinião
Ritos natalinos
LUIZ GONZAGA BARROSO FILHO * Em todo o mundo, as comemorações do Natal vêm sofrendo modificações e adaptações, ao longo dos tempos, e, embora os rituais religiosos alusivos ao evento recomendem a paz, a fraternidade e a solidariedade como princípios fundamentais para o crescimento espiritual do ser humano, paradoxalmente, o que se verifica, a cada ano, é o aumento da violência, da exclusão e do egoísmo, fenômenos que alguns ritos natalinos também apresentam, mesmo que de forma sutil, sobretudo os de caráter profano. No Brasil, especialmente no Nordeste, o Natal que sempre foi marcado pelo forte sentimento religioso e pelo esplendor do seu folclore, perdeu algumas características interessantes de festa popular, depois de ter absolvido costumes burgueses peculiares aos países da Europa e aos Estados Unidos, que não retratam nossa realidade social, cultural e econômica. O surgimento de manifestações aparentemente singelas, consideradas típicas do período natalino em países capitalistas, embute elementos que não se coadunam com o verdadeiro sentido do Natal, a exemplo da brincadeira denominada ?amigo secreto? ou ?amigo oculto?, cuja proposta consiste em promover o congraçamento de colegas ou de parentes, por meio da troca de presentes. No entanto, utilizando o sorteio como critério de escolha da pessoa a ser presenteada, tal brincadeira configura-se excludente, pois impede a participação coletiva, quando o preço do presente a ser trocado é estipulado previamente, uma vez que nem todos os integrantes do grupo dispõem das mesmas condições financeiras, gerando, assim, insatisfação ou o sacrifício do orçamento dos menos aquinhoados que normalmente são alvos de atitudes hipócritas dos ?amigos? mais abastados. Nesse contexto, o consumismo histérico observado no mês de dezembro proporciona alegria aos mais afortunados e frustração a uma parcela expressiva da população, para a qual um emprego com o mísero salário de 240 reais já seria o melhor presente. Mas, o maior exemplo dos efeitos perniciosos da importação dos costumes que modificaram as celebrações do Natal no Brasil, é a adoração ao Papai Noel, personagem que adquiriu ?status? de dono da festa, enquanto o verdadeiro aniversariante só é lembrado na Missa do Galo. Hoje, o conhecido ?bom velhinho? que, na verdade, é um competente ?garoto-propaganda? do comércio e da indústria, vive em todos os lugares, no seu trenó puxado por renas, prometendo prosperidade, ceia suntuosa, com peru recheado, uísque, nozes, panetone e vinhos finos, até nas mais inóspitas regiões, onde o povo sequer tem o direito a uma cesta básica de alimentos e já não escuta mais as bonitas cantigas dos pastoris: ?Meu São José dê-me licença/ Para o Pastoril dançar/ Viemos para adorar/Jesus nasceu para nos salvar?. Afinal, enquanto um ?amigo? for escolhido por sorteio e isso for entendido como confraternização; enquanto a cultura do consumo for estimulada em países subdesenvolvidos e enquanto o Papai Noel, com seu discurso demagógico de vendedor de ilusões, for o símbolo do Natal, infelizmente, os elevados propósitos de Jesus Cristo continuarão sendo desvirtuados e as perspectivas de um mundo melhor estarão mais distantes. (*) É ADVOGADO E MEMBRO DA COMISSÃO ALAGOANA DE FOLCLORE