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Opinião

Uma energia inquebrant�vel

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EDUARDO BOMFIM * No feriado que se prolongou durante três dias em Alagoas, assisti em vídeo a três documentários musicais. Do Chico Buarque, Alceu Valença e Luís Gonzaga, O rei do baião. Eles continham, ainda, depoimentos de personalidades como Tostão, Oscar Niemeyer e vários outros. Mais que três apresentações de grandes astros, acompanhados de outros em duetos, opiniões dos próprios sobre variados assuntos, significavam uma amostra imensamente expressiva da nossa riqueza cultural. O Chico urbano, cronista da cidade, dos sentimentos profundamente íntimos, pesquisador e amante da sua querida Mangueira e sua velha guarda, verdadeira geração de diamante puro. Intérprete do Brasil em sincretismo consolidado na cidade do Rio de Janeiro. Herdeiro do melhor de Noel Rosa, mas outro, singular e desenvolvido em nova paisagem temporal e humana. Político, lírico, carioca e universal. Alceu Valença, que partiu das raízes nordestinas e pernambucanas, adaptou criativamente os sentimentos de alegria e sons do frevo, maracatu e adjacências e deu-lhes compreensão de letra e ouvido para todo o Brasil e várias fronteiras para além da nossa língua. Luis Gonzaga intérprete de um povo carregado de sofrimento e esperança, tipos assemelhados aos de ?El Greco?, no dizer de Gilberto Freyre, construindo edifícios, monumentos, estradas, em ?terras civilizadas?, dando forma à arquitetura cimentada na engenharia. Como a ?Asa Branca? arribou do sertão seco, inclemente como a poesia de João Cabral de Melo Neto, para sofrer o banzo incurável da terra que visionara verde, irrigada, um dia possível tanto em sonho como pela capacidade dos homens. Se não alimentou a barriga dos sertanejos em êxodo, saciou os corações, e sua voz ainda continua um bálsamo para milhões de nordestinos. Quando Gonzaga canta em parceria com seu filho Gonzaguinha, morto precocemente, que ?felicidade o teu nome é união e povo unido é beleza maior para fazer um mundo bem melhor?, há um momento mágico, elétrico, superior na Música Popular Brasileira. É como um gol em final triunfante da seleção nacional na copa do mundo. Assim como as multidões arrebatadas, caudalosas, indomáveis, despertas, determinadas em busca do seu destino que teimam em lhes negar. Passam tempos e as consideram adormecidas, irreversivelmente letárgicas. É quando elas ressurgem sem aviso prévio, indenização ou décimo terceiro, em busca do seu destino. Difícil, doloroso de ser obtido. Mas o povo brasileiro é como o velho Gonzaga cantador, é construtor do seu futuro. Já lhe empurraram a francofilia no final do século dezenove, a anglofilia em todo o século vinte e até os dias atuais. Importam-nos teses sobre a fragmentação, buscando a nossa divisão entre castas, raças, guetos, na esperança de que a multidão desta vez não mais consiga unir-se, mas se odiar antropofagicamente, dividida em pedaços uns contra os outros para alívio das elites internas e externas. Oprimidos e opressores sempre trilham caminhos e projetos distintos. Quer para eles ou para a nação. No entanto o povo possui algo que falta às elites, uma rocha sólida chamada raiz, identidade forjada na marra. De zelar e indignar-se pela sua pátria. Este sentimento é que solda a sua unidade e produz a diversidade, a pluralidade cultural deste país singular, opera o milagre da profusão incrível da genialidade e originalidade do artista brasileiro. Esta cultura, imprescindível à política transformadora, de uma energia inquebrantável. (*) É advogado

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