Opinião
Sexo, drogas & pagode
RONALD MENDONÇA * Depois que o Fantástico do dia 07/12/03 mostrou o barato que é ser detento no presídio Bangu 3, a gente afinal ficou sabendo os porquês do aumento da criminalidade e do excesso de ousadia dos acadêmicos do crime. Com a condenação do pagodeiro Belo, hoje a festa está completa. Os repórteres da citada matéria, dentre outros pontos, insistiram em demonstrar a incrível semelhança entre a vida nas ruas e a vida na prisão. De fato, se os candidatos a essa universidade bem pensarem, não há mais o menor temor em encarar alguns meses ? ou até alguns anos ? desfrutando daquelas mordomias. Ali, batendo papo com os amigos, puxando um baseado, cheirando, tirando sarro, recebendo visitas íntimas variadas, ouvindo pagode e controlando pelo celular as bocas de fumo da cidade... Gente! Qualquer um que tenha queda e jeito para o ramo, depois daquelas cenas, sente-se estimulado a mandar para o inferno o primeiro cara de olhar enviesado. Se não bastassem as impagáveis imagens daquele parque de diversões, emocionou a interpretação ? embora gaguejante ? que o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro fez da denúncia. Imaginem que V. Excia. conseguiu ver naquele desmantelo a prova incontestável da falência desse sistema operacional que enjaula os bandidos. Segundo ele, trata-se de um modelo de 100, 200 anos, anacrônico, portanto. Infere-se assim ? segundo dá a entender o preclaro magistrado ? que tirar de circulação um assassino ou traficante de drogas é perda completa de tempo. Quem sabe, ideal mesmo é a prestação de ?serviços comunitários?... Moralizar a coisa, nem pensar. Ora, que se saiba, 100, 200 anos atrás, presidiários estavam muito longe dessa condição de VIP mostrada pela TV Globo. Na realidade, o deboche a que se assistiu é o resultado das mil facilidades que, sob a desculpa de um tratamento humanitário ? por trás disso covardia e/ou corrupção. São as entranhas de um Estado incompetente e irresponsável. Mas o mais surpreendente de tudo foi o fato de o desembargador-presidente mostrar-se surpreso com aquelas imagens, como se não fosse da sua alçada acompanhar de perto a situação dos apenados. Seriamais ou menos como se,entre nós, o secretário de Saúde do Estado de Alagoas demonstrasse perplexidade todas as vezes que CRM e imprensa denunciassem o horror vivido pela Unidade de Emergência Armando Lages. Mas o Natal está aí e com ele mais uma ótima oportunidade de o Executivo demonstrar toda a grandeza da sua alma-mãe-gentil, mandando, através de indultos, alguns bandidos para casa. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL