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Opinião

Uma boa ideia

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Sêneca (4 a.C-65 d. C) escreveu: “As boas e verdadeiras ideias pertencem a todos”. É boa a ideia do governo de ampliar o programa de amparo social através da captação de recursos decorrentes do teto salarial para os servidores públicos de R$ 39,2 mil mensais e outras providências administrativas. Disso resultaria uma economia de cerca de R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões por ano para o Tesouro nacional. Se essa proposta avançar, Jair Bolsonaro poderá custear uma parte de seu projeto. Dos quarenta milhões de “invisíveis” que surgiram no País durante a pandemia, sabe-se que a maioria será maltratada pela miserabilidade no cenário econômico pós-pandemia. O Bolsa Família, que atende 13, 5 milhões de pessoas e custa R$ 29,5 bilhões de reais /ano, poderá ser ampliado, como também reduzir-se-á uma das nossas maiores mazelas: a desigualdade de renda, que torna o País incapacitado de desenvolver-se, conforme alertou recentemente T. Piketty.

O governo é obrigado a respeitar o Teto de Gastos, mas o teto de gastos com os servidores tem mais buracos que uma peneira. Segundo Élio Gaspari, entre setembro de 2017 e abril deste ano, 8.226 magistrados receberam pelo menos um contracheque com valor superior a R$ 100 mil. Em 565 ocasiões, 507 afortunados faturaram mais de R$ 200 mil. Há universidades onde professores sacam salários de R$ 60 mil mensais. Dois ministros de Bolsonaro conseguiram mais de R$ 50 mil mensais. Nada disso é ilegal. Esse reforço tem nomes charmosos: auxílio-moradia, tempo de serviço ou participação num conselho. A ideia de teto salarial está parada há tempos no Congresso. A turma do andar de cima do Patropi tem direitos adquiridos. No andar de baixo eles são flexíveis ou inexistentes. Eles são os trabalhadores autônomos, informais, ambulantes, flanelinhas, que perderam na pandemia os seus clientes habituais e que hoje dependem do governo para enfrentar a transição econômica que parece será maior do que se previa. Não existe solução sem que alguém mais privilegiado possa perder alguma coisa. É um grande desafio, que precisaria ter um presidente reformista com capacidade de enfrentar as fortes corporações incrustadas no poder e que sempre o apoiaram e o apoiam. Na prática, o auxílio governamental aumentou a sua popularidade na pandemia e precisa ser mantido para preservar-lhe as perspectivas eleitorais, pois, tal como Lula, perde gradativamente apoio com a classe média nas grandes cidades e precisa avançar sobre o eleitorado nordestino. Abandonou seus seguidores mais radicais, que não entendem que é preciso mudar para sobreviver. O sonho do golpe de Estado, acalentado até recentemente, foi abortado, diante das evidencias de que as instituições republicanas funcionam como contrapeso aos ataques extremistas. Para se reeleger, Bolsonaro, além do Renda-cidadã, precisou se metamorfosear e retornar ao velho jogo político. Aquele grito de “basta” exalado em frente ao Alvorada, dado como sinal aos seguidores mais radicais de que a guerra contra o STF estava desencadeada, transformou-se em uma amizade fraternal com os ministros Gilmar Mendes e Toffoli, que até recentemente eram alvo de alucinados ataques. Tudo voltou ao velho normal em Brasília. Essa ideia ressurgiu sob o manto jesuítico de distribuir melhor o pão que tanto sobra na Casa Grande e muito falta na senzala. É uma ideia moral e socialmente justa. Dessa forma, como afirmava Sêneca, passa a ser de todos os que querem um País melhor e menos injusto .

Outros números, todavia, mostram que a economia com os supersalários ficaria restrita a R$ 1 bilhão, havendo necessidade de se cortar em outras frentes, como nas obras públicas. Maquiavélicas insinuações da existência de interesses paralelos de que em se fortalecendo a popularidade do presidente, abrir-se-ia espaço para afrouxar o combate à corrupção, como também seria uma maneira de praticar o toma lá dá cá, rasgando valorosos e acalentados compromissos de campanha, precisariam ser afastadas, evidentemente. Felizmente, o presidente bradou que não existe corrupção no Brasil e que vai acabar com maior o símbolo do combate à mesma - a Lava Jato. Temos, afinal, um Brasil dinamarquês.

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