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EDUARDO BOMFIM * Escrevo esta coluna, motivado por uma ou duas razões, fruto de pontos de vista recolhidos aqui e ali, através de situações distintas. Em recente reunião dos comunistas, um camarada ao discorrer sobre os mecanismos que levam ao número de flutuações de militantes no partido em seu itinerário de lutas e existência, considerou, além de outros argumentos, a questão das gerações. Evidente que o tema abriga elementos de reflexão. O conceito definidor destas encurtou, penso eu, à medida que aconteceu uma aceleração na velocidade dos fenômenos da sociedade. No período mais contemporâneo, ou seja, até parte do século XX, digamos assim, de maneira cabalística, os fatos ocorriam mais vagarosamente. O que não excluía em absoluto grandes saltos nas ciências, na filosofia, tragédias de toda ordem, guerras regionais ou mundiais e inúmeras outras coisas. Os escritores produziam obras excelentes e medíocres. Os políticos, vulgares, corruptos ou estadistas. O mundo foi testemunha de acontecimentos extraordinários que alteraram a face do globo. A grande revolução de outubro na Rússia, que inaugurou uma esperança concreta para os oprimidos na terra, a emergência da China, um gigante que rompe os grilhões da escravidão interna e da opressão internacional. O movimento de libertação contra o colonialismo, abrindo um novo período para continentes inteiros. Descobriu-se igualmente que a roda da História não se move exclusivamente para frente. Há sempre a possibilidade de retrocessos, deploráveis, provando que o determinismo histórico é simplesmente uma palavra sem maiores conseqüências. Desta forma, a dialética mostrou-se soberana. No entanto, a tal da revolução científica e tecnológica veio para ficar e impor rapidez aos meios de comunicação, transportes, mídia, e aí é que algo de substancial aconteceu, o tempo das gerações diminuiu. Já não era medida por um espaço temporal determinado. Mas por símbolos e fatos que pela sua densidade caracterizavam aqueles que os tinham vivido. Desta forma, em alguns anos escassos, dependendo da sua intensidade, poderia existir mais de uma delas. Já em outros momentos, de uma calmaria ou uma hegemonia avassaladora, por parte de um pensamento sustentado pelas armas e dinheiro, uma específica geração pôde ser longeva e menos criativa. É claro, falo aqui em termos, porque sempre existem aqueles, em grande quantidade, que transcendem o mormaço de um tempo sem ventos, tempestades ou crises. Apontando, sinalizando caminhos para além do horizonte. No último artigo de Noam Chomsky na revista Carta Capital, o pensador afirma que ?crescera dentro de uma cultura política?. Pertencia à primeira geração da classe trabalhadora judaica na Filadélfia, EUA, que participara de protestos, greves e coisas assim. E desde pequeno presenciara mulheres e homens lutando por seus direitos, enfrentando variadas formas de repressão. Associei o comentário do companheiro à frase do acadêmico e militante político norte-americano. Tenho a impressão de que em certas épocas os condicionantes objetivos moldam em muito maior quantidade do que em outros momentos dos povos, combatentes, políticos, pensadores, artistas, que têm marcados em sua memória um compromisso por uma causa. Evidente que no transcurso do tempo as defecções tornam rarefeitos os sobreviventes com o que seria um projeto histórico, fruto das pressões da vida, da necessidade implacável de sobreviver ou manter-se fiel à sua consciência. Aí racionalizam, quando não transformam em seu oposto aquele motivo impulsionador que julgaram um sentido fundamental de toda a sua existência. Sem dúvida, nos períodos de resistência, os lutadores mantêm acesa a defesa das transformações em seus partidos ou isoladamente e buscam construir um movimento de adesão navegando nas ondas das insatisfações e contradições, como se deu na vitória de Lula. Constato a genialidade de Marx, ao afirmar que ?há dias que valem por anos e anos que valem por dias?. (*) É ADVOGADO

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