Opinião
Quatro batidas
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Ouvi claramente quatro batidas na porta, com a mesma intensidade e intervalos de tempo regulares entre uma e outra. Não esperava ninguém e, devido ao adiantado da hora, teria que ser alguém muito íntimo ou alguma urgência para bater em minha porta naquele momento. Mas como seria possível, se sou morador novo, ainda não conheço os vizinhos e aqui ninguém me conhece?
Deixo passar alguns minutos sem nada resolver e, mais uma vez, ouço quatro batidas na porta, com a mesma intensidade e intervalos regulares entre uma e outra. Intrigado com a insistência, resolvi atender. Cheguei junto à porta e, antes de abri-la, com voz forte, tentando não aparentar o medo que sentia, perguntei quem estava la fora a chamar com tanta insistência. Não obtive resposta. Apenas o vento provocava o único ruído, quebrando a monotonia daquele silêncio absoluto. Não tive outra saída, abri a porta, deixando entrar o sereno da madrugada, o vento frio e as folhas que pareciam secas e giravam em redemoinho. Não havia ninguém. Olhei ao redor, dei a volta na casa, tentando encontrar justificativa para o fato mas nada consegui perceber, e muito menos entender. Volto para casa, entro e fecho a porta. Tento me reencontrar onde e da forma que estava, mas o ambiente já não era o mesmo. Já não sentia o doce cheiro de alfazema nos lençóis, já não conseguia por os pés no chão, antes limpo, agora cheio de areia e folhas húmidas do orvalho, exalando um odor desagradável de enxofre. Não entendia o que estava acontecendo. Seria fruto da minha imaginação? Claro que não. As evidências, pelo menos em parte, estavam aqui. Apenas não descobri quem bateu na porta, muito menos por que, fato que me intrigava profundamente e fazia com que as ideias formigassem em minha mente. Tentei em vão afastar os maus pensamentos. Peguei um livro, não consegui passar da primeira folha. Na TV, nada interessante além da reprise de um filme de suspense, visto anteriormente. Tudo contribuía para que a tensão aumentasse e o medo se instalasse noite a dentro. Afinal de contas, medo e solidão fazem muito bem companhia um ao outro. Nesse turbilhão de ideias sem sentido, a noite se foi. Permaneceram os questionamentos, repletos de interrogações até que os primeiros raios de sol invadiram a sala, penetrando através das vidraças das janelas, transformando o cenário macabro, mudando a cena. Já conseguia ouvir o canto dos pássaros e a ventania assustadora da noite deu lugar à brisa suave e perfumada das flores e do mato verde. Era um novo dia que acontecia, uma nova experiência a ser vivida. A vida retornava ao seu ciclo normal e as coisas voltavam a acontecer com lógica ou ao menos com justificativa. Só não encontrei lógica ou justificativa para o que aconteceu na madrugada passada, embora saiba que quando a noite chegar, trará com ela as lembranças, dúvidas e inquietações e, para me tirar a paz, quem sabe as quatro batidas na porta, com a mesma intensidade e intervalos de tempo regulares entre uma e outra.