Opinião
OS NOVOS VENTOS DO NORTE
.

A menos que haja uma pouco provável reviravolta nos tribunais, o democrata Joe Biden deverá tomar posse no dia 20 de janeiro como o 46º presidente dos Estados Unidos da América, em substituição ao polêmico Donald Trump. No sábado (7), depois de cinco dias de apuração, todas as projeções apontavam Biden como vencedor da eleição. Até agora, porém, Trump não aceitou a derrota e vem martelando a tese de que o resultado foi produto de uma grande fraude.
Apesar de o candidato democrata ter vencido a eleição, os números não eram bem os esperados por seus apoiadores. Biden vai governar um país dividido, onde o trumpismo permanece forte. O atual presidente obteve mais de 70 milhões de votos, a segunda maior votação da história americana, atrás apenas do próprio Biden. Nacionalmente, ele tem mais de 47% de participação, com força política sobre grandes áreas dos Estados Unidos. Para analistas políticos, o problema de Trump foi não ter conseguido – até por falta de esforço mesmo – expandir seu apoio além de sua base principal. Em 2016, ele ganhou em 30 Estados e muitas vezes governou como se fosse o presidente apenas da parte mais conservadora e republicana do país. Não há dúvida de que Trump possui uma grande conexão com seus apoiadores, de uma forma que se assemelha a uma devoção religiosa. Com certeza continuará a ser figura dominante no movimento conservador nos próximos anos e pode até tentar voltar à Casa Branca em 2024. Biden não se saiu vitorioso por transmitir entusiamo ou carisma, mas por uma gigantesca onda de rejeição ao adversário. Essa rejeição foi construída com a Marcha das Mulheres, as manifestações pelo clima ou com os protestos dos jovens contra as armas e contra a violência contra os negros. A gestão desastrosa da pandemia acabou estimulando os eleitores, que votaram maciçamente. A derrota de Trump representa o repúdio a uma era turbulenta e transmite uma mensagem significativa para o resto do mundo, inclusive para o Brasil, onde outros movimentos semelhantes estão começando a se desgastar.
