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Opinião

Uma cultura de compartilhamento

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Por Caroline Pestana. escritora (@carolinepestanaoficial) | Edição do dia 19/11/2020 - Matéria atualizada em 18/11/2020 às 22h58

Não há dúvidas de que a última década foi marcada pelas revoluções tecnológicas que alteraram o modo de viver das pessoas. Dos telefones com fio aos pequenos aparelhos celulares, da fita cassete ao CD e, agora, aos famosos streamings. Com uma velocidade cada vez maior a tecnologia tem renovado e facilitado o modo de viver dos seres humanos. Mas o grande foco atual não tem sido no produto utilizado, mas no modo como o utilizamos.

Na época de nossos pais e avós, era comum uma geladeira que durasse o que parecia uma vida inteira. Carros e eletrodomésticos, assim como empregos, eram apreciados e escolhidos pela sua durabilidade. Só que a durabilidade não é exatamente compatível com a velocidade dos avanços modernos. Quando a todo mês há uma nova descoberta, um novo software e um novo aplicativo, perde-se o interesse pelo durável, substituindo-o pelo prazer da novidade. Foi assim que nos últimos anos acompanhamos as guerras discretas entre marcas de celulares que buscam fidelizar um maior número de clientes para que, ano após ano, lançamento após lançamento, adquiram a versão mais avançada de seu produto, até agora. Acontece que, ao mesmo tempo em que há uma busca pela novidade, há o consequente desapego pelo antigo. Sortudos (ou inteligentes) foram aqueles que, logo de cara, perceberam a importância de pensar nesse descarte. Seja no âmbito das questões socioambientais, ou na própria psicologia do consumo, a preocupação com a quantidade enorme de produtos que são deixados de lado, dia após dia, por consumidores de todo o planeta, esteve presente em discussões políticas, e cada vez mais está sendo levantada por ativistas. Enquanto alguns pensavam em como parar o consumo, outros perceberam que a chave estava em como revisitá-lo. Não se trata mais de tentar reeducar uma população marcada por um capitalismo tecnológico que faz brilhar o olhar, mas em inovar também o modo de acesso a essas novidades. Foi por essa perspectiva que surgiu a cultura do compartilhamento e reuso. Essa tendência conseguiu reunir a preocupação com o consumo consciente, fatores ambientais, sociais e de governança. Não atoa foi um dos setores que mais teve crescimento nos últimos anos. Quando pensamos na genialidade do compartilhamento, fica claro que esse é o novo caminho para manter o consumo, a inovação e, de alguma forma, diminuir as consequências sociais e ambientais. O compartilhamento de meios de transporte, que começou com carros e hoje abrange bicicletas e patinetes, foi apenas o começo. Hoje pode-se compartilhar casas, apartamentos, acessórios e roupas. Mais ainda, pode-se lucrar com aquilo que já não te interessa mais. O mercado de produtos femininos, é um dos que mais cresce no mundo. Cosméticos, vestuário e acessórios são responsáveis por mais da metade das vendas em shoppings centers. Ao mesmo tempo, existem estimativas de que 70% dessas peças deixam de ser usadas após seis meses da aquisição.

Incentivadas pela cultura da instantaneidade e busca impulsiva por novidades, somos diariamente frustradas por nossos guarda-roupas. Teria ideia mais brilhante que uma rotatividade? E quem sabe, ainda, um lucro com as peças que não nos servem mais? Essa é a chave de ouro do mercado do compartilhamento e reuso. O estímulo a troca e a venda.

Dez anos atrás não imaginávamos uma vida onde fosse tão simples e barato pedir um carro para irmos a qualquer lugar. Acredito que, em mais alguns anos, ficaremos estarrecidos com a ideia de que em algum momento vimos nossos guarda-roupas lotados de roupas que não usamos mais.

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