Opinião
Solidariedade humana
Ano após ano, durante a Semana Santa, eu recordo a cidade de Penedo, onde morei quando adolescente, e com a família acompanhava os rituais religiosos na catedral dessa cidade. Esses dias maiores da Semana Santa tinham, para mim, um efeito semelhante aos longos dias de chuva de inverno, com poucas manifestações de alegria. Durante a quinta e a sexta-feira da Paixão, não se comia carne, os mais velhos faziam jejum, rádios tocavam músicas dolentes. As cerimônias religiosas e litúrgicas ainda eram proferidas em Latim, e predominavam os cânticos gregorianos. Muita coisa mudou desde então. Há dez anos, numa Semana Santa, contei uma historieta que aqui reproduzo: um dia, um rapaz pobre que vendia mercadorias de porta em porta, para pagar os estudos de Medicina, observou que somente lhe restava uma simples moeda de dez centavos no bolso. Tinha fome. Decidiu que pediria comida na próxima casa que encontrasse. Bateu à porta. Porém, seus nervos o traíram, quando uma encantadora jovem a entreabriu. Acanhado, em vez de comida, pediu um copo de água. Como o rapaz parecia faminto, em vez de água ela lhe trouxe um copo de leite. Ele bebeu devagar, olhando-a sempre, e depois perguntou: ? Quanto lhe devo? ? Não me deve nada. E continuou: ? Minha mãe sempre me ensinou a nunca aceitar pagamento por uma ação cristã. Ele agradeceu comovido. Quando Charles Kelly saiu daquela casa, sentiu-se física e espiritualmente fortalecido, ampliada sua crença em Deus. Já estava resignado a abandonar todos os seus sonhos. Mas reagiu, e resolveu enfrentar as batalhas do dia a dia: formou-se em Medicina. Anos depois, essa jovem mulher ficou gravemente doente. Os médicos locais não encontraram solução para o caso dela. Finalmente, enviaram-na à cidade grande, onde foi chamado um especialista para estudar sua rara enfermidade: chamaram o dr. Charles Kelly. Quando ele escutou o nome do lugar de onde a paciente proviera (era sua cidade), ficou extremamente curioso. Ao ver a paciente, reconheceu-a, imediatamente. Recordou o episódio do copo de leite. Ela não se lembrou dele. Decidiu fazer o melhor que pudesse por aquela mulher que lhe estendera a mão. Foram meses de luta para salvar a enferma; ele conseguiu recuperá-la. Mas os gastos com o tratamento foram grandes. Quando abriu a fatura hospitalar, algo lhe chamou a atenção, pois estava escrito: totalmente paga, há muitos anos, com um copo de leite. Assinado: dr. Charles Kelly. Ações de amor e de solidariedade humana. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.