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Opinião

O LEGADO DA ESCRAVIDÃO

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Na noite da última quinta-feira (19), véspera do Dia da Consciência Negra, João Alberto Freitas, um cidadão negro de 40 anos, foi espancado e morto por dois seguranças no estacionamento de um supermercado em Porto Alegre. As agressões começaram após um desentendimento entre a vítima e uma funcionária do supermercado, que fica na Zona Norte da capital gaúcha.

Em Maceió, também neste fim de semana, um jovem negro de 19 anos prestou um boletim de ocorrência contra um supermercado por ter sido acusado de furtar um celular e levado para uma sala, onde teria sido agredido por aproximadamente duas horas e obrigado a gravar um vídeo confessando o crime que diz não ter cometido. São dois exemplos que servem para evidenciar as diversas dimensões do racismo e as desigualdades encontradas na estrutura social brasileira. Em nota sobre o caso, a Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que milhões de negras e negros continuam a ser vítimas de racismo, discriminação racial e intolerância, incluindo as suas formas mais cruéis e violentas, e lembra que, a cada 100 hominídios no País, 75 são de pessoas negras. O Brasil aboliu oficialmente a escravidão no final do século 19, mas a preocupação não era resolver o problema dos escravos e seus descendentes. Buscava-se eliminar algo que manchava a imagem do País perante o restante do mundo desenvolvido. Concedeu-se, então, a liberdade aos cativos, mas não as condições de integrá-los a sociedade. Por isso mesmo, mais de 100 anos depois, a escravidão aparece fortemente nas estatísticas. É a população negra que convive com níveis inaceitáveis de indicadores sociais, quando comparados com descendentes de europeus brancos, e ainda sofre com racismo estrutural, que muitos teimam em negar. O debate sobre a eliminação do racismo e da discriminação racial é urgente e necessário, envolvendo todas e todos os agentes da sociedade, incluindo o setor privado. Como afirmou Joaquim Nabuco no século 19, não adianta acabar com a escravidão. É preciso também cuidar do seu legado.

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