Opinião
Estado injusto
RUYTER BARCELOS * Há um ano, o Brasil vivia a expectativa de um novo governo. Para a tradição republicana, um governo de esquerda gerava mais que ansiedade pelo porvir, o anseio popular transpirava esperança, como se construir uma boa sociedade passasse pelo bom governo. O mundo moderno tem mostrado que assim não é, pois não basta mudar o regime político para ter uma boa sociedade; esta precisa ser partícipe do processo político de evolução, de crescimento, de amadurecimento; a sociedade é responsável, ao conduzir o processo eleitoral, pela obtenção do Estado justo. Assim foi, amadurecemos ao longo do último ano. Com certeza, no campo político, a maior dificuldade do governo, e do Partido dos Trabalhadores, foi controlar as dissidências internas, já que a negação da linha ideológica rachou a base do partido. No próximo ano, com as eleições municipais normalmente acirradas, é lícito esperar que haja uma união em torno do presidente da República, como que para blindá-lo diante dos ataques dos adversários e, desta forma, o próprio PT será beneficiado com tal união. O resultado esperado será um crescimento nacional do partido, refletindo o carisma do presidente Lula. Com a tranqüilidade política obtida, após as incertezas do processo eleitoral, o governo foi envolvido por uma aura favorável na condução da política econômica, e a macroeconomia emitiu os sinais necessários que o caminho escolhido era o correto, bem como aumentou a credibilidade externa, criando condições para atrair novos investimentos. Com a estabilidade, após um ano de muita luta e recessão, o problema crítico continua a ser o desemprego, que está em níveis proibitivos, colocando muitos brasileiros na marginalidade econômico-social, uma angústia nacional. Se a política é parte da economia vão bem, o Brasil social não. Conseqüência da falta de investimentos em áreas importantes como a saúde, a segurança, a educação e a geração de empregos, os problemas sociais no País estão com contornos mais que alarmantes, pois já afetam as próximas duas ou talvez três gerações de brasileiros. Apenas como exemplo, para quem tem a oportunidade de entrar em um hospital público, a cena é degradante e, se for na periferia das capitais, o choque é maior. Ali é possível encontrar pessoas deitadas em colchões, no chão dos corredores, ou em macas, sem atendimento médico adequado, um verdadeiro desespero. Educação de qualidade, saúde e segurança pública para todos, bem como geração de empregos são problemas herdados pelo atual governo e encontrar as soluções é sua responsabilidade, pois foi eleito para tal. A ONU reconheceu o quanto o governo anterior fez para diminuir os problemas sociais no Brasil, chegando a quantificar que dez milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza. A questão é que, no mesmo período, o País cresceu dezessete milhões de habitantes. Então, o governo anterior ficou devendo a sete milhões que, somados aos quase quarenta milhões que já estavam na pobreza, protestaram e o governo perdeu as eleições. Ao Brasil, faltam os recursos na quantidade necessária para os investimentos estruturais; os recursos destinados às políticas sociais, conjunturais, são insuficientes; portanto, é preciso estabelecer prioridades, fundir programas e otimizá-los com pessoas que saibam executá-los. Ao final de um ano de pouca efetividade, tenho dúvida se o PT tem nos seus quadros recursos humanos aptos a realizar as transformações, pois ainda temos um Estado injusto. Contudo, fica a esperança. (*) É OFICIAL DA RESERVA DO EXÉRCITO BRASILEIRO [email protected]