Opinião
Ecos natalinos
MARCOS DAVI MELO * Começamos o dia 24 com a caminhada rotineira pela orla da Pajuçara. Em seguida realizamos a nossa cantata natalina à beira-mar às sete horas da manhã. O nosso coral, o dos amigos da praia é uma brincadeira regida pelo maestro Zé Grandão, mas o da Ufal é bom e deu bem o seu recado. Um início de dia ameno, rodeado por amigos fraternos, adequado à véspera natalina e engrandecido pelo cenário paradisíaco da Ponta Verde. Depois, um café frugal e a rotineira ida para o hospital, onde cerca de 120 pacientes estão em tratamento de câncer conosco. Infelizmente, ali a realidade era bem diferente. Esta é uma época de afloramento das emoções, onde a maioria das pessoas fica um pouco mais sensível, alguns até um pouco mais solidários. Lembram-se de pessoas e fatos do passado e ou planejam o futuro. Para quem tem saúde isto é apenas uma questão de administrar convenientemente as emoções. Para quem está doente e para as suas famílias, esta época é um abismo escuro, um desafio doloroso, para o qual é necessário juntar todas as forças disponíveis e até as inimagináveis. Pode ser uma tortura, um labirinto sem saída. Nada assemelha-se mais a Shopenhauer. Inevitavelmente, todos os anos preparamos com antecedência a nossa equipe hospitalar: os atendentes, os técnicos em radioterapia, as enfermeiras, a psicóloga. Todos precisam estar atentos: pacientes que estavam evoluindo bem, desequilibram, somatizam, recrudescem e pioram. São as dores múltiplas, as febres, a angústia, a insônia, a depressão. Os enfermos requerem cuidados redobrados. Pacientes mais jovens que têm doença grave vêem neste Natal e neste ano-novo os últimos aos quais comparecerão. Desesperados, não esperam presentes maiores de que algumas horas sem dor, algumas horas de evasão e repouso para fugirem da realidade. Por estas e outras mazelas com as quais temos que conviver diariamente, é que ao voltar para casa à noite e me reunir com a família para a ceia natalina, olhar ao redor e ver que todos gozavam excelente saúde, a sensação não poderia ser outra que não a de plena felicidade, que um vinho encorpado e seco a prolongaria ao máximo. Se logo depois, como sempre, faltou-me a tão necessária fé, só consegui entendimento e consolo quando Ivanelza, que dirigiu os trabalhos, Bíblia nas mãos, pediu a um de nossos filhos que lesse Thiago 5:13; ? Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores!?. Companheiro leitor, que a saúde continue a nos contemplar por todo o ano de 2004. (*) É MÉDICO