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Opinião

Em defesa da lusofonia

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Se existe um continente sobre o qual eu conheço bem a realidade é a África. Já estive em mais de uma dezena de países no continente africano, sobretudo nos chamados PALOPS - Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, nomeadamente em Angola, onde já fui 14 vezes. Em um primeiro momento como Secretário Especial da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro para Relações com a CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, e, posteriormente, liderando missões humanitárias e empresariais para promover investimentos naquele país. Por esta ações estive cotado, inclusive, para assumir a Secretaria Executiva da CPLP - Comunidade dos Países de Língua portuguesa.

O meu contato com este universo dos países lusófonos, se iniciou pelas mãos de José Aparecido de Oliveira, ex-governador de Brasília, ex-ministro da cultura do Brasil e ex-embaixador do governo brasileiro em Portugal, no Governo Itamar Franco. Zé Aparecido, como era chamado pelos amigos, foi o idealizador e articulador da criação da CPLP. A minha indicação para assumir o cargo máximo deste importante órgão da diplomacia mundial, sediado em Lisboa, passaria obviamente por ele, o que terminou não ocorrendo, em razão da velha política de puxões de tapete de última hora. O projeto maior que tínhamos era a instalação, no Rio de Janeiro, da Fundação Municipal Memorial dos Povos de Língua Portuguesa. Tive o apoio à época para tanto, do então governador de Minas Gerais Itamar Franco, do ex-Presidente de Portugal Mário Soares, do primeiro-ministro português Antonio Guterres, atualmente secretário-geral da ONU - Organização das Nações Unidas e do cônsul português no Rio de Janeiro Luís Felipe de Castro Mendes. O projeto só não foi adiante, por falta de vontade política do então Prefeito Cesar Maia. Só um líder com visão de estadista poderia viabilizar àquela que teria sido a marca maior da integração entre os povos lusófonos, confirmando o Brasil como a grande liderança deste bloco multipolar entre o concerto das Nações. O potencial continental africano é inconteste e pouco explorado numa perspectiva geopolítica pelo Brasil. Nesta quadra do governo bolsonaro, não existe a menor possibilidade de construção de parcerias entre os PALOPS e demais países do continente negro, sobretudo por termos um presidente sem a mínima noção das relações internacionais e o mais despreparado ministro das relações exteriores da história do Itamaraty, adepto do terraplanismo e que nega o aquecimento global, dentre vários absurdos que têm envergonhado o nosso país nos fóruns internacionais. Dentre as países em África que falam a língua portuguesa, Angola é um dos que têm maior potencial para se transformar numa das grandes nações lideres do continente. Não tenho dúvidas em afirmar que trata-se do país que mais se parece com o Brasil e cuja gente é a que mais tem identidade com os brasileiros. Um documentário que trata bem disso é o belo e poético “Cartas Para Angola”, dos cineastas brasileiros Coraci Ruiz e Júlio Matos, uma profunda reflexão sobre a necessidade da construção e fortalecimento entre os povos lusófonos.

Tenho a esperança de que, em um futuro próximo, tenhamos o resgate desta política de aproximação com nossos povos-irmãos de expressão idiomática. Nos une, para além da língua: a história, a etnia, a cultura, a economia, a gastronomia e a alegria. Somos povos com tantas semelhanças, que poderíamos afirmar mesmo, que somos um único povo, e que juntos temos um grande papel a cumprir ante a humanidade.

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