Opinião
2004
DOM FERNANDO IÓRIO * Vivo contente por ter chegado a mais um Natal, mas descontente por não ser ainda o que devo ser. Acho que o descontente é o único homem verdadeiro. Diante da Gruta, lá me encontro eu a perguntar ao Deus-Menino: que queres que eu seja, Menino de Belém? Tu bem sabes que não sou ainda o que bem querias que eu fosse, o que bem querias de mim. Mas, aqui estou, no meu agora, à espera do meu ainda-não que se avizinha. Na sensação de ter feito o bom e não o melhor, sinto o espaço que me resta para agir melhor entre o bom e o ótimo. Daí porque no meu contentamento, sou descontente, como a semente que quer ser botão, rosa, enfim perfume para aromatizar o mundo. Se Deus me deu o bastante para me bastar, não basta que me baste o simples ser de agora, mas que devo ser amanhã. O descontentamento armou meu ser na tenda do crescer, a ponto de eu querer sempre mais, na humildade do demorado crescer, até quando possa ser mais do que sou no tempo, até o derradeiro momento em que o tempo não terá mais tempo de ser tempo, porque, então tudo será eternidade sem tempo. E lá me encontro, diante da Gruta, a conversar com o Menino-Deus: Terá sido inútil o meu descontentamento, ó meu Menino? De certo, que não ? responderás... Por que negar, continuo um contente-descontente: contente, por Te amar; descontente porque não Te amo tanto quanto deveria amar. Ó mar do meu descontentamento, quanto do teu sal são lágrimas de minha vida. Ensina-me, Menino da Gruta, correr à busca de ser mais, até o dia em que eu nascer para a vida sem tempo, na eternidade do verdadeiro ser; então, não poderei ser mais, porque já estarei na contemplação d?aquele que é plenitude de tudo que é. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS