Opinião
2021, o otimismo e a realidade
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Voltaire, em Cândido ou o Otimismo, faz com que o seu protagonista, mesmo submetido às piores degradações, humilhações e sofrimentos que um ser humano possa enfrentar, tenha como lema inabalável o jargão: “Tudo está bem, tudo vai bem, tudo vai o melhor possível”. O ano de 2021 começa e para uma parcela grande da população mundial, embora tenha sofrido terrivelmente com a pandemia de Covid-19 e se depare com a economia quebrada, mas se sobreviveu e tem vacinas disponíveis, pode emular aquele jargão de Voltaire, que se tornou a quinta essência do otimismo: “tudo vai bem” .
Existem razões para se sentirem otimistas, como afirmava Nietzche: “O que não me mata, faz-me mais forte”. Mesmo com a economia em frangalhos, como a alquebrada vizinha Argentina, sentem nos braços as agulhadas da vacina que mostram a luz no fim do túnel. Isso é o resultado do esforço, do avanço e da confiança na ciência, como também da responsabilidade e do respeito das autoridades aos seus cidadãos. Um princípio óbvio e elementar as norteou: a vida humana é o mais importante e, nesse caso, se necessitava que se priorizasse a vida humana com todas as medidas recomendadas pela ciência, para poder salvar a economia, inclusive e principalmente a vacinação em massa. Infelizmente, a realidade brasileira é diferente. Somos o País em desenvolvimento mais atrasado e desorganizado nessa vacinação. Segundo o biologista Fernando Reinach, o Brasil precisará vacinar cerca de 500 mil pessoas diariamente, sete dias por semana, initerruptamente, para, ao fim de 2021, poder ter alcançado uma imunidade de rebanho, capaz de propiciar um retorno à algo parecido com a vida normal. O cientista está pessimista porque não temos vacinas contratadas concretamente e não temos prazos fechados. A Anvisa cria dificuldades inexistentes em países mais avançados econômica e cientificamente. Por que? Para dificultar ainda mais a única saída para a salvação das vidas e da economia? O Ministério da Saúde diz uma coisa hoje, outra amanhã, está perdido e sem comando adequado há tempos. Jamais a economia de uma nação esteve tão dependente de uma única questão: o controle da pandemia de Covid-19, que só advirá através da vacinação em massa. Isso foi desprezado pelo governo federal desde o início da pandemia. Os 14,5 milhões de desempregados, o auxílio emergencial que desaparecerá brevemente, os 250 milhões que se gastam diariamente com a saúde na pandemia, o crescimento da dívida pública, o déficit fiscal crescente são combustíveis para alimentar uma crise social gravíssima que se esboça no horizonte. Segundo a notável Margarete Dalcomo, da Fiocruz, teremos o pior janeiro de nossas existências: não temos vacinas, nem ao menos seringas, mas temos uma corrida desorganizada atrás delas, extremamente atrasada pelo descaso e pela inépcia do governo federal. O Brasil precisa enfrentar essa situação crítica sem falsos otimismos, com a realidade. Temos um governo federal despreparado, desinteressado e insensível com a mortandade pública. Estamos chegando aos 200 mil mortos, as perspectivas econômicas são nefastas e inexiste razão consistente para otimismo. Os mecanismos inerentes à democracia precisam ser acionados e nos propiciar uma saída que possibilite evitar que esse desastre se transforme em mais confusão e caos, o que só interessa aos pescadores de águas turvas.