Opinião
A trag�dia de Helena
RONALD MENDONÇA * Dezembro acabou e com ele 2003. Também teve fim a caça a Saddam Hussein. Içado do fundo falso de um casebre, com aspecto de pedinte de porta de catedral, o antes todo-poderoso ditador iraquiano era uma melancólica sombra daquela prepotente criatura de poucos meses atrás. Não houvesse outras ilações, por si só a decadência de Hussein já seria o bastante para se refletir sobre a estupidez de se eleger arrogância, vaidade e truculência como opções de vida. Se a captura do déspota foi comemorada com retratos e foguetes pelo americano Bush, para os petistas que na mesma ocasião estavam recolhidos para expelir indigestos dissidentes o momento não poderia ter sido mais inoportuno. É que havia a forte expectativa de um monumental show de marketing encenado pelos jurados e réus daquele tribunal de feição stalinista. Definitivamente, a prisão de Saddam roubaria a cena. Não há dúvidas de que é a mídia quem dá o tom da importância dos eventos. De repente, uma prosaica limpada de mão da rainha da Inglaterra, depois de sujá-la de titica de pombo num corrimão de hospital, por exemplo, vira manchete em horário nobre. À posteridade a tarefa de balizar os fatos. A esse respeito lembro de uma história/mito de 12 séculos antes de Cristo. No olho da discórdia uma outra Helena, a de Tróia. Tida como a mais bela de todas as mortais, a grega Helena, ainda adolescente, foi raptada por Teseu, com quem teria dividido lençóis durante alguns invernos. Depois de resgatada, tornou-se esposa de Menelau, chefe militar da ilha de Esparta. Um dia, um príncipe oriental de nome Páris, contando com a ajuda da deusa Afrodite, enfeitiça Helena, e juntos vão curtir Tróia, hoje Turquia. Como era de se esperar, Menelau não achou a menor graça. Injuriado, reuniu os amigos e correu atrás do prejuízo. Foram 10 anos de refregas entre gregos e troianos. Dali brotariam mitos-heróis do calibre de Heitor, Ulisses e Aquiles, dentre outros. Em Tróia, Helena driblava como podia a hostilidade dos troianos, que a responsabilizavam pela situação de desordem vivida pela outrora próspera cidade. O pior é que se suspeitava de que a bela torcia pelos gregos. Como sabemos, Tróia cairia de quatro sob a astúcia de um expediente conhecido como ?Cavalo de Tróia?. Virou escombros. Em nítida desvantagem, o supremo desafio de Helena foi o de encarar o olhar homicida de Menelau. Contudo, ao vê-la lindamente nua, o bravo guerreiro, derretendo-se ao calor de doída saudade, jogar-se-ia aos pés da infiel suplicando que o aceitasse novamente. No fim de tudo, entre mitos, heróis e grandes paixões, duas verdades parecem saltar cristalinas: nem o PT é Tróia, nem Heloísa é a Helena. Um bom ano a todos ! (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL