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Opinião

NECROCAPITALISMO E PANDEMIA

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Por PAULO MEMÓRIA - jornalista e cineasta | Edição do dia 13/01/2021 - Matéria atualizada em 12/01/2021 às 22h18

O nosso país é governado por um presidente negacionista, que combate as luzes do conhecimento, a evolução da cultura e o desenvolvimento econômico sustentável. Temos um governo de “sem biografias”, ou de elementos cujas trajetórias políticas ou profissionais, em uma perspectiva ética e moral, enrubesce até mesmo notáveis estelionatários que sempre atuaram na vida pública brasileira, sem o mínimo pudor ou esmero pelo dinheiro público do erário nacional. O grande problema brasileiro, entretanto, está longe de ser a grande roubalheira dos assaltantes oficiais, destes com fotos nas repartições públicas. Os bandidos de colarinho branco, tiraríamos de letra. Considerando apenas o contexto da corrupção, podemos dizer que ela representa, no máximo, 3% do PIB brasileiro. Em outras palavras, macroeconomicamente, somos um país tão abençoado, que suportamos a ladroagem nos três poderes constituídos: executivo, legislativo e judiciário, em seu três níveis de atuação: municipal, estadual e federal, bem como a maior corrupção existente no Brasil, que sequer é pública, tomando forma como a bilionária sonegação fiscal da iniciativa privada.

O capitalismo tupiniquim e alhures tomou forma definitiva neste século XXI, na sua versão mais perversa e selvagem, que é o neoliberalismo. As metas de “austeridade” a serem atingidas no chamado tripé macro econômico, caracterizado pelo câmbio flutuante, metas fiscais e metas de inflação, praticamente enterrou o liberalismo clássico, em sua versão keynesiana, que salvou o capitalismo em várias oportunidades. O capitalismo liberal e laboral, de viés produtivo, está sendo definitivamente substituído pela financeirização da economia mundial. O objetivo desta nova elite é a desconstrução do Estado de bem estar social, por intermédio das políticas de privatizações e a destruição dos mercados nacionais, fazendo desaparecer quaisquer resquícios de políticas de soberania nacional e da própria concepção do que conhecemos como nacionalismo. O que estamos assistindo é um grande complô corporativista, para maximizar o lucro do mercado financeiro, em detrimento de um modelo desenvolvimentista, que beneficia a todos, para cada vez mais concentrar a renda e o capital nas mãos da banca internacional. O modelo capitalista vigente, parece ver na pandemia uma janela de oportunidades para o extermínio em massa da população. O pensador polonês Zygmunt Bauman faz referências a “vidas desperdiçadas”, ou seja, àquelas que representam os trágicos efeitos colaterais do neoliberalismo dominante: os miseráveis resultantes da má distribuição da renda mundial, que não são viáveis sequer para o que Karl Marx denominava conceitualmente de Exército Industrial de Reserva, que atende as oscilações econômicas do capital internacional. Este é o cenário formado para o que o filósofo africano Aquiles Mbembe classifica de necrocapitalismo, no qual “a expressão máxima da soberania reside em definir quem deve viver ou morrer, é o controle da mortalidade como manifestação de poder, definindo quem é e quem não é descartável”. Até recentemente eram as guerras que cumpriam esta missão, agora a Covid-19 tem se prestado a este papel com muita eficiência. Quem será o Dr. Fantástico (filme de 1964, de Stanley Kubrick e estrelado por Peter Seller) por trás desta conspiração do mal para destruir os homens? Em “Os Condenados da Terra”, Frantz Fanon denúncia a violência do colonialismo, que leva a morte social dos povos colonizados, com a demolição dos estilos de vida autóctones da sociedade subjugada. Este novo salto do modelo assentado no capital, tem tudo para se transformar no apocalipse da humanidade.

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