Opinião
Tratamento igualit�rio
Muito se tem falado e irá se falar ainda da postura, determinada pela Justiça brasileira, de ?fichar? os turistas americanos ao desembarcarem no Brasil. A medida é polêmica, com explícitos aspectos positivos e negativos. De positivo, salvaguarda o amor-próprio dos brasileiros constrangidos por revistas e cancelamentos sumários de vistos de entrada. Quando a autoridade judiciária brasileira determinou essa ação constrangedora aos norte-americanos, antecipou ? em retaliação prévia ? uma justa reação a medida idêntica determinada pelo governo americano e que deverá ser implantada nesses dias. Ocupou importantes espaços na mídia internacional e pode ajudar o povo americano a avaliar o peso da discriminação. O negativo está na nossa carência da vil moeda americana, trazida (ainda em pequenas quantidades) pelos turistas e negociantes. O bom seria uma medida de protesto que ajudasse a vir ao Brasil bem mais gringos com muitos mais dólares, que aqui fossem deixados em protesto contra tudo que possa estar errado ao norte do Equador. Prós e contras à parte, essa é uma batalha política. E como em todo bom tabuleiro de xadrez, vale o movimento das peças e não apenas a jogada inicial. Pode-se dizer, com segurança, que o Brasil tomou a iniciativa com um lance ousado, de coragem. Em seguida, o debate deveria ser situado numa crítica construtiva contra a discriminação e na defesa de uma verdade inquestionável, o Brasil não faz parte de nenhum ?eixo do mal? ? como a grande maioria das nações ? pelos conceitos da doutrina Bush ou de quaisquer outras. Apenas o racismo (enquanto discriminação a latinos) pode fundamentar a não-inclusão dos brasileiros ao lado de anglo-saxões e de orientais (segmentos populacionais isentos do constrangimento do ?fichamento? ao pisar em solo americano. Seria momento, também, de se buscar o estabelecimento de novas normas internacionais em temos de procedimentos contra o terrorismo, mas sempre tendo como referência o direito ao tratamento igualitário como princípio. Enfim, todos devem lutar para que a sombra do terror não se converta numa paranóia, onde a liberdade e os direitos individuais não sejam ainda mais cerceados. E, neste ano ainda novo, devemos todos lutar para que 2004 não reproduza o ambiente opressor descrito num livro famoso intitulado 1984, onde o ?grande irmão? a todos fiscalizava, a todos devassava a intimidade em nome de uma segurança ?coletiva? que eliminava a segurança individual. Que a medida brasileira não se limite a um jogo de retaliações, pois como disse um filósofo sagaz, ?em sendo olho por olho, todos ficaremos cegos?.