Opinião
RENOVAM-SE AS ESPERANÇAS
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Benjamim Franklin escreveu: “Nunca houve uma guerra boa nem uma paz ruim”. O Brasil entra no 11º mês da guerra da pandemia da Covid-19 e se constata que entre os 230 mil mortos, encontra-se um contingente elevado de médicos e outros profissionais de saúde. Segundo a OMS, temos 1/3 de todas as mortes de profissionais de saúde (médicos, enfermeiras, técnicos e auxiliares de enfermagem) do mundo dessa linha de frente. A última estimativa (outubro de 2020) já mostrava mais de 400 médicos mortos. As previsões são de que ultrapassaremos as mil mortes de médicos até o final da pandemia.
O relato de uma enfermeira de Manaus transcrito de um periódico internacional é exemplar: “Ao chegar em casa depois de um exaustivo plantão no hospital, onde fazemos três, quatro intubações em pacientes de Covid-19 por turno, eu terminava exausta. Antes que pudesse tomar um demorado banho de meia hora para me limpar bem e reduzir as chances de contagiar o pessoal de casa, o caçula de quatro anos correu pelo corredor para abraçar-me. Eu pensei: vixe e agora? Do nada apareceu o meu marido e segurou o pequeno de última hora. Ele o abraçou e falou: Temos que esperar a mamãe se limpar”.
Dos aproximados 230 mil óbitos por Covid-19 no Brasil, pelo menos 600 foram de enfermeiras e auxiliares, segundo o Conselho Federal de Enfermagem (CFE). Fazendo-se um paralelo histórico, esse número de mortos supera os da 1ª Guerra Mundial, um dos conflitos bélicos mais sangrentos da história. As razões são relacionadas às várias etapas da pandemia. No início, era a falta de EPIs (quando chegavam, eram de má qualidade e pouco protegiam), a falta de protocolos rígidos (havia muita contaminação na sua desparamentação - a retirada das EPIs, uma vez que não era um hábito usá-las e não houve preparo para todos esses equipamentos, como gorro, face shield, avental e máscaras) e não se sabia como se deveria proceder, nem orientação e nem coordenação do Ministério da Saúde .
Agora, na segunda onda, as contaminações e mortes desses profissionais são atribuídas a outros fatores. A exaustão é um deles. Não existe risco zero quando se lida com pacientes infectados, e quanto mais cansadas as equipes -- muitas estão atuando desde março de 2020 sem parar -, maiores as chances de falhas. Em 2020, 44.441 enfermeiros, técnicos e auxiliares foram afastados do trabalho e colocados em quarentena depois de serem infectados, um universo significativo no contingente de pouco mais de 2 milhões de trabalhadores da área. Quanto mais pacientes de Covid-19 nos hospitais, maior o risco para os médicos e profissionais de saúde, o que ainda não foi entendido por entidades representativas dos médicos, como faz corretamente o Conselho Federal de Enfermagem. As mortes e afastamentos de profissionais de saúde fomentaram ainda um mercado de vagas na área, com um perigoso efeito colateral para os profissionais (e pacientes). Muita gente nova foi contratada. Existe uma demanda enorme por profissionais de enfermagem, e os novatos, porém, não contam com a experiência dos veteranos que já estão na linha de frente, o que traz riscos adicionais para os desacostumados com todos os procedimentos e medidas necessários de autocuidado. A situação do Brasil no cenário mundial de enfrentamento da pandemia de Covid-19 é dos piores, e o risco de morrer pela pandemia aqui é 3 ou 4 vezes maior do que em outros países emergentes.
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Entre tantos valorosos colegas alagoanos levados pela pandemia está o saudoso Dr. Ronald Mendonça, muito respeitado neurologista, acadêmico e professor da Ufal. Sun Tzu escreveu: ”Diante de uma larga frente de batalha, procure o ponto fraco e, ali, ataque com a sua força maior”. Essa semana, os novos presidentes do Poder Legislativo manifestaram as suas convicções de que são as vacinas a nossa força maior e o presidente do STF relacionou-as diretamente com a sustentação da democracia. Uma oportuna sinalização para o mundo de que o Brasil não é totalmente negacionista nem obscurantista. Só obteremos a paz com a vitória das vacinas nessa guerra da pandemia.