Opinião
O livro dos ass�dios
RONALD MENDONÇA * Ao contrário do que muita gente pensa, o assédio não é invenção de americano. De fato, parece que a prática nasceu no exato momento em que Deus inventou o homem e já o meteu numa gaiola de ouro chamada Éden, o popular ?paraíso?. Logo depois, a maligna serpente, num lance de ousado assédio, convenceria Eva a comer da maçã jurando que ela ficaria tão criativa quanto o próprio Criador. E aí o mundo abriu as porteiras... Na realidade, o glamouroso filme ?Proposta Indecente?, onde a personagem vivida pela divina Demi Moore aceita 1 milhão de dólares por uma noite de amor, é uma pálida amostra do nível de requinte que os ianques alcançaram. Nesse terreno, brasileiro também se supera. Patrício que se preze não pode ocupar o posto de auxiliar de inspetor de quarteirão que já se acha no direito de exigir mimos. Petulante, brandindo carteirinha de autoridade, fura até fila de banheiro. Um fiapo de prestígio ou uns trocados a mais no bolso já bastam para tipos sem graça se julgarem irresistíveis. Aliás, se o poder sobe à cabeça, para muitos seu exercício é sobretudo perineal. Tendo como pano de fundo a ausência de reciprocidade, o assédio é uma praga que marca presença em todo contexto em que pessoas com uma pitadinha de poder real ou imaginário investem na extração de favores, acenando com benesses ou retaliações. Impertinente, desigual e imposta, a ação humilha e revolta suas vítimas. Contudo, a falsa incriminação não é menos cruel. Cansada de levar pancada, a Associação Americana de Medicina estaria em vias de conclusão de um manual em que, para evitar complicações, alerta seus sócios sobre a necessidade de se examinar doentes na presença de testemunhas idôneas, nunca menos de 4, incluindo até gente do Ministério Público. Ainda segundo o ?catecismo? dos médicos americanos, o risco aumenta quando a consulta envereda para hábitos alimentares, funcionamento intestinal, menstruação, horários de sono, vida sexual... Isso, na visão de alguns pacientes do hemisfério norte - e da maioria dos advogados ? podem conter lúbricas intenções. Lá nos Estados Unidos o clima é de permanente vigilância. Na mira dos advogados, os médicos (e suas perguntas ?íntimas?), na melhor das hipóteses, hoje correm o risco de se ferrar acusados de invasão de privacidade. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL