Opinião
Mundo desigual
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Em setembro de 2000, reuniram-se 160 chefes de Estado e de governo de todas as regiões do planeta, na sede da ONU, em Nova York, para redigir a Declaração do Milênio. Foi um encontro histórico, com a participação de oito mil delegados e a cobertura de cinco mil profissionais de imprensa.
Os líderes globais definiram metas a serem cumpridas, algumas das quais com prazo de quinze anos para produção de efeitos. Trataram ainda da igualdade entre os terráqueos, que há tempo já deveriam ser beneficiados com o desenvolvimento e com direitos e oportunidades iguais. Os líderes mundiais assumiram o compromisso de reduzir a pobreza e até de “encorajar” a indústria farmacêutica a garantir remédios essenciais mais disponíveis e de fácil aquisição para todos. Em 2015, diante do evidente fracasso no cumprimento das principais metas estabelecidas pela Cúpula do Milênio, a ONU lançou nova agenda com objetivos a serem alcançados até 2030. O primeiro deles trata da erradicação da pobreza extrema. Na sequência, a garantia da igualdade de oportunidades entre os povos. Cinco anos depois, em meio a uma grave pandemia, percebe-se, de forma lamentável, que pouco avançou o processo de cooperação internacional, visando a diminuição das disparidades sociais. Estas perduram em nosso meio, zombando de declarações que não passam de longínquas miragens no horizonte. Dados revelam a falta que faz agora aquele “encorajamento” da indústria farmacêutica, principalmente na produção de antígenos para todos. A Covid-19 revelou também como alarmante é o vírus da desigualdade. São identificadas como ricas 90% das nações que começaram a vacinar seu povo, sendo que 75% do lote inicial de 130 milhões de doses chegaram apenas em dez países. Diante da primeira leva, 130 países detentores de 2,5 bilhões de pessoas não obtiveram acesso aos imunizantes. Mesmo tardia, foi correta a recente intervenção feita pelo Brasil na OMS, ao defender o licenciamento de laboratórios para fabricação de vacinas. Sobre o Brasil, pelo Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, revela-se um imenso abismo social. O país detém a segunda maior concentração de renda do mundo, já que somente 1% da população detém quase 30% de toda a riqueza nacional. Se o recorte estatístico avançar na direção dos entes federados, aí o fosso social é dramático. Alagoas, pelos dados do IBGE, acumula indicadores graves no campo da exclusão social, posicionando-se bem distante de Estados do centro-sul brasileiro. Do regional para o global, muito esforço precisa ser feito, porque não é possível construir o desenvolvimento sustentável,com a desigualdade campeando pelo mundo afora. Como diz o Papa Francisco, precisamos do “milagre da cooperação”, de modo a demolir o muro da indiferença que exclui os mais fracos.