Opinião
O calo dos outros
EDUARDO BOMFIM * De acordo com as agências noticiosas, o governo dos EUA queixou-se das novas medidas adotadas no Brasil para o controle e identificação dos turistas norte-americanos que entram no País e pediu mudanças. Disse não entender se as novas regras são resultado de ?reciprocidade? ou um ?castigo?. Em primeiro lugar, a iniciativa não partiu do governo brasileiro, mas da Justiça Federal do Mato Grosso. Portanto, só pode ser revogada através de procedimentos jurídicos da mesma instância ou outra superior. Evidente que o assunto extrapolou a área jurídica e resvalou para o campo das relações internacionais. O governo norte-americano introduziu a dúvida em relação à sentença proferida pelo juiz e o tribunal que representa, ao suscitar a possibilidade de ?castigo? na referida decisão. O tribunal do brioso Estado reafirmou que adotara o conceito da ?reciprocidade?. Como vocês sabem, os EUA são meio desconfiados com as iniciativas que o atingem, mesmo legais. Venham de onde vier, quer dizer, do mundo inteiro. Afirmam que os cidadãos de seu país estão sofrendo constrangimento em nossos aeroportos. Argumentam questões técnicas. As identificações são demoradas e primárias. Os galegos e galegas, além de outras cores, estão tocando ?piano?, melando os polegares em tinta, e o tempo para a liberação está sendo longo demais. Neste caso, trata-se de sofisticação tecnológica. Os gringos sabem muito bem que neste quesito eles são insuperáveis. Os mais avançados, imbatíveis. Olhem que não estamos falando em armas letais. Principalmente aquelas de milimétrica precisão. Miram em um alvo militar e acertam um hospital infantil e coisa e tal. O assunto poderia ser resolvido facilmente. Bastaria que nos enviassem, através de doação, as sofisticadas máquinas que utilizam em seus aeroportos, para a comodidade dos seus cidadãos em férias por estas plagas. Claro que declinamos das algemas, correntes para amarrar os viajantes, cães assustadores, etc. Não devem se preocupar que não iremos humilhar ninguém, principalmente chanceleres, obrigando-os a tirar os seus sapatos e meias apesar da imunidade diplomática que possuem, por convenção internacional celebrada inclusive por eles. Assim, ninguém precisa temer, que não repetiremos o que fizeram com o ministro Celso Lafer, do governo FHC. Acocorado no chão do aeroporto, cercado de guardas e curiosos, teve que mostrar os seus lindos pés, provando o óbvio. Além dos seus doloridos calos não possuía nenhum artefato explosivo, estralo de bebé ou nenê, como queiram, busca-pé, estrelinhas, fogos juninos de qualquer espécie. Muito menos uma ogiva nuclear escondida nos pés. O ministro atual, da mesma pasta, Celso Amorim, já avisou às autoridades de lá que não tira os sapatos nem para o presidente Bush e senhora. Sim, porque pode estar acompanhado de sua companheira e não fica bem a mulher de um chanceler tirar os sapatos sem a presença da primeira-dama do país anfitrião. Manda a etiqueta diplomática. Portanto, fiquem tranqüilos, não se trata de ?castigo? em absoluto. É ?reciprocidade? mesmo, da boa. Aos nossos agentes de turismo que ficaram preocupados com a irritação dos ?humildes? turistas norte-americanos, convém pensar um pouquinho menos em seus negócios lucrativos e um pouco mais em seus brios ou da sua pátria. Pelo menos foi o que externou um professor americano: ?Isto deve servir de lição ao meu país?, em rede nacional da ?Globo?. Foi mais brasileiro que um trêmulo dono de hotel de Copacabana, para a vergonha dos cariocas que são para lá de irreverentes e muito ciosos da brasilidade. Sim, meus eventuais leitores, não se trata de ?castigo? nenhum. O problema mesmo é de soberania e reciprocidade jurídica. Ou como diz o ditado popular. Só se sabe como dói pisar em um calo quando alguém comprimir o seu. Calma, enfim, trata-se de uma negociação diplomática internacional em torno do calo. (*) É ADVOGADO