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Opinião

Uma dor demorada

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Por Marcos Davi Melo. médico e membro da AAL e do IHGAL | Edição do dia 27/02/2021 - Matéria atualizada em 26/02/2021 às 21h38

Aldous Huxley escreveu: “Os fatos não deixam de existir só porque são ignorados”. Há um ano, em 25 de fevereiro, uma despreocupada terça-feira de Carnaval, um brasileiro que voltava de uma viagem de trabalho à Lombardia, deu entrada no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde se confirmou o primeiro caso de Covid-19 no Brasil. Naquela ocasião existiam 80 mil casos confirmados e 2.800 mortes (a maioria dos quais na China) e a doença apenas chegava à Itália.

Um ano depois, a pandemia já matou mais de 2,4 milhões (254 mil no Brasil) e acometeu 110 milhões de pessoas, números extremamente elevados, segundo a OMS, ao informar que o número de casos novos de Covid-19 sofreu uma queda por todo o mundo na última semana, uma tendência que já vinha se observando desde janeiro. O número é 11% inferior ao da semana anterior e metade do que chegou a ser registrado no final de 2020. A maior queda está no número de mortes, com 66 mil novos óbitos no mundo na semana. Para a OMS, essa queda é, sobretudo, o resultado de medidas sanitárias, do uso de máscaras e de confinamento adotados nos últimos meses.

Pela contagem da OMS, o Brasil é o segundo maior atingido no mundo no período que inclui a semana passada, com 316 mil casos novos. Enquanto houve uma queda de 29% de casos novos nos EUA, 22% no México, 11% na Rússia e 10% na Índia, o Brasil registrou apenas 1% na taxa em comparação à semana passada. O Brasil não consegue acompanhar a queda mundial, verificada em vários países, como o Reino Unido, que já planeja sair do lockdown, utilizando muita prudência e em quatro fases, a se iniciarem em março. As medidas sanitárias salientadas pela OMS são claramente somadas ao avanço da vacinação no mundo, onde Israel (cujas quarentenas e medidas sanitárias foram as mais rigorosas do mundo) é, proporcionalmente, o país que mais vacinou, com 78,38 doses por cada 100 habitantes, seguida por Seycheles (67,77), Emirados Árabes Unidos ( 51,67), Reino Unido (27,24), Maldivas (20,16) e EUA (19,33). O Brasil ocupa a 46ª posição nesse ranking, com 3,15 doses aplicadas por cada 100 habitantes, muito abaixo do Chile, o melhor na América do Sul, com 15,3 doses aplicadas a cada 100 habitantes. As quarentenas, o uso de máscaras, o lockdown já tinham comprovado a sua importância nas cidades norte-americanas que os adotaram há cem anos, durante a Gripe Espanhola, e recuperaram mais rápida e fortemente as suas economias. Nos EUA, o novo governo promove acelerada vacinação, incentiva intensamente o uso de máscaras, o distanciamento social, e os resultados começam a aparecer com o arrefecimento da pandemia. O seu principal infectologista, Anthony Faucci, e pesquisadores chegaram à conclusão de que 40% das suas mais de 500 mil mortes nessa pandemia decorreram da politica negacionista de Trump. Biden promete vacinar toda a população até julho de 2021, o que propicia as condições para uma recuperação efetiva da sua economia. Hannah Arendt, ao refletir sobre o holocausto e a milenar perseguição ao povo judeu, escreveu: “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”. O Brasil fez o contrário do preconizado pela OMS, agindo com desinformação, negacionismo da ciência, desprezo pelo uso de máscaras, pelo distanciamento social e a negligência absoluta na aquisição de vacinas no tempo certo e a sua desesperadora falta atualmente. Esses são FATOS que não poderão ser ignorados quando a História da infinda DOR tão doída dessa pandemia de Covid-19 for finalmente escrita.

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