Opinião
Feij�o e Internet
A Fundação Getúlio Vargas concluiu, através da Pesquisa de Orçamento Familiar, que o consumidor médio brasileiro está gastando mais com Internet e TV a cabo do que com arroz e feijão. Para Internet e TV, de cada R$ 100 de renda, são comprometidos em média R$ 1,47. Para o feijão com arroz, dos mesmos 100 reais, o brasileiro reserva R$ 1,30. E mais, os gastos com o telefone superaram as despesas com Internet e TV a cabo: R$ 3,60 para a tarifa do telefone fixo e R$ 1,30 para o celular. Essa pesquisa é realizada nas 12 principais capitais do País e o universo abrangeu 14 mil famílias com renda entre um e 33 salários mínimos. Essa amplitude explica, de certo modo, porque itens de consumo restritos aos estratos mais elevados da população (como Internet e TV paga) aparecem como tendo desembolso maior pelas famílias do que os gastos com alimentação. Não poderia existir retrato do consumidor médio brasileiro mais próximo da realidade do que este levantamento. E o resultado não poderia ser mais sintomático do quanto foi difícil para a classe média os dois últimos anos. No item alimentação: diminuição do consumo de carne bovina, aumento do consumo de lanches e refeições rápidas e, mesmo assim, as despesas subiram de 25,12% para 27,49%. No item habitação, as tarifas públicas foram as principais responsáveis para que este item fosse o que mais pesasse no orçamento familiar: passou de 31,14% no levantamento anterior para 31,84% no atual. A última década foi muito dolorosa para com os sonhos da classe média brasileira, que foi despertada pela dura realidade da persistente crise econômica do país. Projetos como aquisição de carros novos, lazer, viagens, foram sendo postergados indefinidamente, ao mesmo tempo em que gastos com planos de saúde, por exemplo, eram cortados. As perspectivas para 2004 apontam para uma recuperação da economia brasileira, segundo o governo. Nada que possa entusiasmar a classe média, porém. Continua na agenda das autoridades econômicas o estudo de medidas que, se implantadas, só irão prolongar um pesadelo iniciado uma década atrás.