Opinião
Vera para sempre
RONALD MENDONÇA * Lamentavelmente, o início do ano está frustrando milhares de servidores públicos alagoanos com o imbróglio chamado precatório. Primeiro se disse que havia um ?dever? de o Estado cumprir uma determinação judicial. Depois, num passe de mágica, a ?obrigação? passou a ser de empresas exportadoras ? era como se o poder público estivesse fugindo da raia e terceirizando a dívida. Finalmente, nem o governo mostra-se inclinado a assumir, muito menos os tais exportadores. Pelo jeito, teremos mais um ano de embromações. Porém, como dizia o poeta, nem tudo são mágoas no Paraíso das Águas. No dia 07/01/04 Vera Romariz Correia de Araújo foi eleita para a Academia Alagoana de Letras. Se a eternidade, através de sua obra literária, já estava praticamente garantida, agora, a imortalidade de Vera é de papel passado. Lembro da bonita e recatada adolescente Vera morando na Ladeira dos Martírios, sob as asas dos pais e a vigilância canina dos irmãos. Menina-prodígio, aluna do Colégio de São José, com apenas onze anos venceria furioso rally cultural, através das ondas do rádio, disputando com alunos de outros colégios, respondendo sobre o Aleijadinho. A garota prometia. Por falar em beleza, há uma imensa saudade dos tempos em que as irmãs Romariz - Vera e Salvelina, entre outras divas, enchiam de graça os domingos ensolarados da praia da Avenida, e, de quebra, ainda povoavam os sonhos e as fantasias de deslumbrados fedelhos. Vocacionada para a literatura, a futura imortal ainda tentaria ? com a aplicação habitual ? a carreira médica. Aprovada com distinção no sempre difícil vestibular, Vera cursaria até o terceiro ano. Sua saída em direção às letras (uma complicada decisão) deve ter sido muito festejada no Olimpo; seus colegas de Medicina, entretanto, perdendo uma fonte de luz, custaram a se conformar. Depois disso, a estrela de Vera brilharia cada vez mais forte. Sem nunca ter investido no modelo ?intelectual-porra-louca?, tão em voga na época em que iniciou sua trajetória, hoje, a maturidade intelectual passeia de mãos entrelaçadas com a irretocável jovialidade epidérmica. Inteligente, culta e criativa, em Vera habitam generosas poções de mãe, esposa, dona de casa, poetisa, escritora, amiga (e que amiga!), professora, engajamento político, de mulher sensível enfim, que só pessoas muito especiais conseguem harmonizar. A realidade é que a escolha de Vera para a Academia não surpreende. Antes, é o reconhecimento ao conjunto de sua primorosa produção literária e de sua dedicação à literatura. Sem qualquer favor, até sua oportuna e justa eleição, Vera Romariz era a mais luminosa intelectual alagoana a estar fora dos muros da vestal Casa de Gracindo. (*) É MÉDICO E PROFESSOR