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EDUARDO BOMFIM * Tomei conhecimento da obra literária de Manuel Vázquez Montalbán quando da sua morte súbita em uma sala de conexão, creio que em Manilha, de retorno ao seu país, a Espanha. Uma prova do meu desconhecimento do que existe de bom na literatura de origem hispânica. Autor de romances policiais, criador de um detetive particular excêntrico e ao mesmo tempo humano. Apaixonado pela sua Barcelona e crítico mordaz da sua artificial modernização, ?que os pedantes chamam de pós-modernidade?, segundo o seu ponto de vista. Ativista de esquerda, o autor construiu em seu personagem central, Pepe Carvalho, uma personalidade lúcida, crítica e meio cínica. Em um de seus livros fala em parábola sobre uma ?nação que erra pelos desertos durante séculos perdendo até o nome?. Saudoso da identidade desvirtuada da metrópole ?de Gaudí e dos melhores camarões fritos do mundo?, Montalbán fala sobre a diferença abissal entre progresso verdadeiro e o enquadramento pasteurizado dos centros urbanos para atender ao bem-estar psíquico dos turistas igualmente uniformes, ?distanciados da verdadeira natureza dos viajantes?. Os passos do seu personagem contestam sistematicamente o presente com as alterações arquitetônicas, espaciais, de Barcelona. Ele as nega como caráter de mudança, um salto adiante. Crítico acérrimo da nova ordem mundial, o detetive estoca, aqui e ali, o império do Norte e seus aliados europeus. Parecia antever a aventura em que o direitista Aznar levaria a Espanha pelos desertos do Iraque, e os primeiros ataúdes dos soldados chegando em solo pátrio. Contra a globalização, por estas e outras opiniões, Montalbán, apesar disso não se identifica com os sistemáticos peregrinos ?militantes globais contra a globalização? que estão em todo canto em qualquer parte do mundo, acompanhando as reuniões de cúpula dos países do Primeiro ou Segundo Mundo, destituídos, porém, dos conceitos de nacionalidade e do internacionalismo proletário, muito embora cumpram lá o seu papel. Ao contrário, Pepe insinuava sempre que os grandes conglomerados econômicos transnacionais iriam destruir as raízes da sua Catalunha. Mas este raciocínio distanciava-se de qualquer coisa de etnocêntrico porque em seus comentários há sempre uma evocação das lutas pela Espanha Republicana, e as brigadas internacionalistas, esmagadas por Franco, apoiado pelos fascistas e os nazistas alemães. Acredito que a obra de Montalbán, sob a capa de histórias policiais, venha a ser parte de uma cultura de resistência que se opõe em palavras e idéias ao circo que se armou no mundo, durante quase vinte anos. Tanto na economia como na cultura. Neste último caso, buscou-se a prostração ou ?a estética cultural do lixo?, afirma Ferreira Gullar, com as inúmeras exceções ululantes. Por isso, nestes últimos anos aumentou extraordinariamente a distância entre certas correntes artísticas e o povo em geral. A arte, nestes casos, deixa de ser uma marca de talento ou mesmo de genialidade do artista em benefício da reflexão do espírito individual e coletivo da sociedade, para se transformar em um processo de introjeção tão profunda e incompreensível que nem ele próprio consegue decifrar o seu conteúdo. E quanto mais inatingível a esfinge artística, impossível à percepção das maiorias, mais promissora no mercado extremamente lucrativo dos negócios do ramo. Uma espécie de contra-revolução ao Renascimento, ao Iluminismo ou ao nosso Modernismo. Enfim, uma marcha à ré histórico-cultural. Manuel Montalbán utilizou-se do áspero recurso do estilo policial para contestar, bradar em defesa do humanismo, da justiça social. Por uma nova ordem mundial solidária entre os povos, onde o progresso necessário e inevitável não deve ser confundido com a descaracterização das nações ou cidades, ao ponto em que o cidadão que a elas pertence, assim como elas próprias que dele fazem parte, hostilizem-se mutuamente. Pepe Carvalho é o próprio Montalbán. Um pouco de nós também. (*) É ADVOGADO

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