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Pais agressivos, filhos sofridos

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MILTON HÊNIO * É impressionante o número de crianças que dão entrada nos serviços de emergência das capitais brasileiras, vítimas de maus-tratos dos pais, principalmente do pai. São quadros clínicos de queimaduras com pontas de cigarro, fraturas, fruto de espancamentos, hematomas no rosto, dentes quebrados e uma infinidade de ocorrências que tornam aquelas crianças criaturas infelizes. A infância do ser humano sempre foi e continua sendo um dos períodos de maior sensibilidade da vida. E quando essas crianças têm a infelicidade de ter pais psicopatas, perversos, aí a situação torna-se terrível porque, com certeza, isso vai comprometer o seu futuro. Pais violentos, agressivos, não são características de regiões subdesenvolvidas como a nossa; nos Estados Unidos, com todo o seu poderio, as pesquisas mostram que todos os anos morrem mais de 5.000 menores em conseqüência de agressões sofridas por pais malucos. Estima-se, pela história colhida nesses serviços de emergência, que essas crianças são maltratadas constantemente. Os gestos de agressividade contra elas são de origem física, emocionais e até sexuais, quando encontram padrastos despudorados. Quais as conseqüências dos maus-tratos em crianças? Os efeitos são devastadores e seus resultados, trágicos. Além de aquela criatura ficar marcada pelo resto da vida, sofre também a família e a própria sociedade, pois terá um de seus membros com um comportamento inquieto e duvidoso. Existem vários tipos de ?pais problemas?: os que são naturalmente grosseiros e que representam um verdadeiro terror dentro de casa ? ?venha cá seu peste, deixou a torneira aberta?, e tome tapa na cabeça da criança; os alcoólatras contumazes, que já perderam a noção ética da vida e agridem a esposa na frente dos filhos e os filhos na frente dos vizinhos. A punição física, sem motivo, é sempre um ato de ódio e isso vai despertar um sentimento de revolta na alma infantil. O grande escritor francês Romain Rolland dizia: ?O vinho conserva o aroma do primeiro tonel e a alma humana traz o selo de uma juventude frustrada?. O que se pode fazer para ajudar essas crianças? Durante longo tempo, na civilização Ocidental, a responsabilidade de educar os filhos era exclusiva dos pais e parentes. Cuidavam e educavam as crianças como bem entendiam e ninguém tinha o direito de intervir. Hoje não, já existe o Estatuto da Criança e do Adolescente que determina, em seu artigo 13: ?Os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra crianças ou adolescentes serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da localidade, sem prejuízo de outras providências legais?. Assim, cabe ao médico que atender a criança no hospital ou ao vizinho que assistir a cenas degradantes com crianças, denunciar os seus agressores, para que sejam devidamente punidos e tratados. Felizes são as crianças que convivem com pais afetuosos e amigos. Eu fui uma delas. De meu pai, guardo na lembrança um dia chuvoso, em que ele me abrigou sob seu velho capote embaixo de uma árvore durante algum tempo. Esta é uma das recordações mais significativas que um filho pode ter: sentir-se abrigado pelo pai. Um momento apenas, mas que consola pela vida inteira. Que Deus seja o Pai dessa enorme quantidade de crianças sofridas e espancadas e que abrindo os Seus braços abrigue todas. No tempo. Na eternidade. (*) É MÉDICO [email protected]

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