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Opinião

A compreens�o rec�proca

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DOM FERNANDO IÓRIO * Por que ? poderia alguém perguntar ? por que não escrever sobre o econômico, sobre o político, sobre o social, assuntos que constituem o prato de cada dia? É justamente por serem o prato do cotidiano, o pão nosso de cada dia, o terra a terra que preferimos retornar ao homem por demais esquecido em seus sentimentos, nos arcanos de suas virtudes e defeitos. Estamos diante da compreensão recíproca e do desentender-se. De onde o mal-entendido? De que não compreendemos os outros. E tudo, talvez, por motivos íntimos, pessoais que dirigem o ser humano à má interpretação dos atos, atitudes e palavras do nosso interlocutor. Bem sabemos não ser fácil a compreensão recíproca. Não fora assim, não existiriam tantas nuvens espessas e sombras imaginárias entre os que vivem em íntimo contato, como os esposos, os irmãos, os parentes e amigos. Com efeito, os piores desentendimentos surgem entre pessoas que mais se amam ou se amaram, justamente entre aqueles que não deveriam permitir nem um dia, nem uma manhã, nem mesmo uma tarde de mal-entendido. É de redobrada força a súplica da Sagrada Escritura: ?Não deixe que o sol se ponha sobre a sua ira?. Forçoso se faz atacar de frente as causas da incompreensão, como o egoísmo, a soberania do eu, o orgulho, o ciúme que procuram impor o nosso julgamento sobre a maneira de ser do outro, mormente quando julgamos sem ?ouvir?, quando condenamos sem dialogar, quando rompemos por interesse, quando tornamos real o imaginário. Quem desconhece a façanha imaginária de Dom Quixote, herói de Cervantes? Julgando-se grande cavaleiro, resolveu percorrer o mundo, juntamente com seu escudeiro, Sancho Pança, tentando libertar damas enfeitiçadas das garras dos dragões e das mãos sanguinolentas de bandidos. Extravagantemente vestido, montado no seu velho Rocinante, cai no imaginário mal-entendido de ver em todas as coisas um inimigo. Pobre Dom Quixote! Dominado pela imaginação, sai na sua caminhada guerreira atacando, a torto e a direito, camponeses inocentes e suas pobres carriolas, como se fossem esquadrões e tropas inimigas. Pensa até que os próprios moinhos de vento são inimigos ferrenhos. Sua imaginação não tem limites: esporeia o animal e, de lança em punho, joga-se contra o colossal moinho, cujas garras extensas o lançam ao solo. Não acontece o contrário com tantos que se deixam conduzir pelos desentendimentos imaginários. Por que vermos em tudo sombras de divisão? Por que, em diversos momentos, usarmos óculos escuros ou coloridos, vendo preto o que é branco, e vermelho o que é azul? Por que nos tornarmos mártires a custo do sofrimento alheio? Por que tolhermos a caminhada do outro a preço do imaginário irreal? O tempo de nosso peregrinar na terra é tão curto que não deveríamos perdê-lo com as bagatelas dos desentendimentos que, não poucas vezes, são imaginários. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS

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