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Opinião

Li��es de vida

RONALD MENDONÇA * Seu Pedrito era um médio proprietário rural. Durante alguns anos tratei como pude de uma dor crônica que o atormentava, causada por uma queda de cavalo. Apesar das flagrantes diferenças - incluindo aí a idade -, o longo tempo de convi

Por | Edição do dia 22/01/2004 - Matéria atualizada em 22/01/2004 às 00h00

RONALD MENDONÇA * Seu Pedrito era um médio proprietário rural. Durante alguns anos tratei como pude de uma dor crônica que o atormentava, causada por uma queda de cavalo. Apesar das flagrantes diferenças - incluindo aí a idade -, o longo tempo de convivência, calcado no respeito mútuo e na recíproca admiração, criou um forte elo de amizade. Na realidade, o velho era um poço de simpatia. A cada 2 ou 3 meses Pedrito – como ele exigia ser chamado – comparecia ao consultório, sempre às sextas, relatava seu estado de saúde, tentava tirar suas dúvidas e, depois disso, conversávamos sobre mil outras coisas. Plantador de cana, numa tarde em que ele se mostrou particularmente irritado, segredou-me o dissabor: “tem usineiro, doutor, que detesta pagar suas contas”. Nos seus melhores dias, no entanto, recebi inesquecíveis aulas de sabedoria, a bem da verdade nunca postas em prática. Certa feita, enquanto pretendia provocar o meu amigo com cambaleantes teorias sociológicas sobre as causas do êxodo rural, do inchaço das grandes cidades, a favelização e outros que tais, responsabilizando a monocultura, a não distribuição de renda, Dom Pedrito disparou curto e grosso: “doutor, me admira o senhor vir com essas histórias de comunista. O xis da questão é não se cair na besteira de botar uma caneta Bic no bolso da camisa de um caboclo... Quem faz isso perde o empregado, porque nunca mais o sujeito vai querer pegar no cabo de uma enxada!” Um dia, o papo descambou para relacionamento conjugal, gastos supérfluos e por aí afora. Foi quando ele me confidenciou uma das suas máximas prediletas, em forma de preceito quase bíblico: “jamais conte a sua mulher quanto o senhor ganha ou quanto tem guardado no banco; se contar, o senhor nunca mais se apruma”. Confúcio não se sairia melhor. Na sua derradeira aparição no consultório, Pedrito chegou cabisbaixo acompanhado por um filho. O rapaz foi a fim de “dedurar” o velho pai, que teria perdido o senso do ridículo ao apaixonar-se por uma vizinha, que “se ainda fosse nova e bonita, talvez valesse a pena”. O pior de tudo é que a dita criatura não era tão “sincera” quanto sua limitada beleza física poderia sugerir. Nesse momento, o velho ergueu-se irado do sofá e, rubro de emoção, lastimou o fato de “naquela altura da vida estar sendo criticado por um filho na presença de estranhos, mesmo se tratando da pessoa do doutor”. Mesmo assim, para não fugir do hábito, transmitiu aquele que viria a ser o seu último e definitivo ensinamento: “fiquem sabendo que mulher boa é aquela por quem a gente tem tesão”. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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