Opinião
M�dicos brasileiros
MILTON HÊNIO * Todos os anos, perto de 10 mil médicos recebem seu diploma nas diversas faculdades de Medicina espalhadas pelo Brasil. Atualmente, há mais de 280.000 médicos no País, na proporção de um para cada 677 habitantes, situação melhor do que a recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é de um médico para cada 1.000 habitantes. Quando terminei meu curso médico, em 1962, o Brasil era considerado pela OMS um imenso hospital sem médicos. Hoje, graças a Deus, temos médicos suficientes. O grande problema é o volumoso número de pacientes, que a cada dia aumenta, precisando de atendimento médico. As precárias condições do povo brasileiro são alarmantes. Os médicos lutam desesperadamente para salvar vidas, mas já não estão conseguindo, só com o seu esforço, compensar todas as carências do sistema. É uma lástima que depois de tanto esforço ? seis anos de intensos estudos e mais dois ou três de Residência ? o jovem profissional da medicina encontre obstáculos de toda sorte para tentar praticar uma medicina decente. Aqui no nosso Nordeste é interminável a fila dos pobres que sofrem em busca de atendimento. A saúde, com pouco recursos para atender à grande demanda, atinge características nitidamente empresariais e o povo se sente duplamente espoliado: pelo trabalho excessivo e pouco remunerado, causando-lhe angústia e enfermidades, e pelas condições econômicas que não permitem acesso a tratamento condigno ou curativo de sua saúde. A falta de eficiência, de estrutura, de equipamentos e até de remédios em muitos hospitais brasileiros causa sofrimento aos pacientes tratados em camas improvisadas e submetidos a situações de extremo constrangimento. Nesses 41 anos no exercício da medicina, vejo como foram enormes as transformações apresentadas na área da saúde em nosso País. Se por um lado existe a tecnologia notável e os mais recentes conhecimentos científicos, por outro há um total desapreço pela vida humana nos mais longínquos pontos do País. Antigamente existiam os institutos de Previdência e a figura do indigente. E todos eram muito bem tratados, porque o médico sentia-se realizado em seu trabalho, recebendo uma remuneração condigna e o apreço do seu paciente. O doente procurava o médico que conhecia e nele depositava toda a sua confiança. Com o advento do SUS, pelo volumoso número de dependentes, houve uma quebra nessa relação médico-paciente. O médico de hoje desempenha até três ou quatro atividades em locais diferentes, dando plantões noturnos e correndo desesperadamente para ter uma sobrevivência condigna, pois os salários federais, estaduais e municipais são vergonhosos para a responsabilidade de sua função, que é lidar com a vida humana. Agora mesmo, o Conselho Regional de Medicina e o Sindicato dos Médicos apelam aos profissionais de Medicina para que não se inscrevam no concurso anunciado pela Prefeitura de Maceió, onde a remuneração bruta é de R$734,00. Portanto, não faltam profissionais para o bom exercício da arte de curar. O que falta é decisão política de fazer a coisa certa, onde os doentes possam ser bem atendidos e os médicos realizados, aliviando o desespero dos enfermos. Que o Ministério da Saúde caminhe com urgência na solução desse grave problema, que é a saúde do povo brasileiro. A medicina vive literalmente do sofrimento humano e a força grandiosa de nossa profissão, e talvez o seu maior encanto, estão ainda no trato permanente com todo aquele que em sofrimento nos bate à porta. (*) É médico ** [email protected]