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O v�u das mu�ulmanas

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JOSÉ MEDEIROS * Por que o véu que cobre a cabeça de alunas de origem árabe, em escolas públicas da França, tem provocado tão intensos debates, celeumas e constrangimentos? O governo francês determinou a proibição desse véu com a explicação de que se trata de um símbolo religioso, de submissão, num mundo caracterizado pela afirmação da mulher, de seus direitos e posições. Com o uso do véu - que é obrigatório em numerosos países que professam a religião islâmica - pretendem os líderes religiosos estimular a resistência à absorção de valores ocidentais, nos países em que as jovens se encontram como imigrantes. É incrível que tudo isso seja exigido em pleno século XXI, mostrando que no mundo muçulmano a liberdade da mulher é bastante reduzida, pois lhes são impostas regras de vida extremamente opressivas. Não me cabe discutir a religião alheia, pois em política, futebol e religião as opiniões divergem e cada um sempre acha que a sua é a certa. Por falar em véu, lembrei-me de um fato ocorrido nos anos 70, na Universidade de Athens, Estado de Ohio, Estados Unidos. Numa manhã, os alunos-estagiários visitantes (havia latino-americanos, asiáticos e africanos, com bolsa da Usaid) ficaram perplexos com uma estranha movimentação das jovens universitárias americanas. Portavam bandeirolas, faixas, faziam barulho. Esperavam a chegada de alguém importante. Quem? Um governador, prefeito, ministro? Não era nada disso. Aguardavam a famosa escritora Betty Friedan, defensora dos direitos da mulher, líder do movimento feminista nos Estados Unidos. Ouvi a conferência da escritora, em tradução simultânea. Falava da rebeldia da mulher americana que reivindicava novos direitos, oportunidades e independência. Podia até ter tudo, (ser uma feliz dona de casa), mas lutava por outros objetivos de vida. Queria mais educação e ascensão profissional. Concluiu, com uma frase que anotei: ?Quero algo mais do que meu marido, meus filhos e minha casa; quero liberdade e afirmação pessoal?. O que esse fato tem a ver com o véu das muçulmanas? Betty Friedan, nessa palestra, combateu veementemente os rigores do regime do Irã, instalado na década de 70, dominado pelo sectarismo religioso e que reservava à mulher um papel secundário. A mulher iraniana, na ótica de sua observação, estava presa numa camisa-de-força, obrigada a vestir-se de preto, cobrir a cabeça e o rosto, mesmo quando o calor ultrapassava os 40ºC. O puritanismo islâmico (no Irã da época) chegava a tal ponto de exagero que o governo desaconselhava aos médicos olharem profissionalmente o corpo da doente; deviam fazê-lo, indiretamente, através de um espelho (sic). Trinta e quatro anos são passados desde esse episódio e, com o passar dos anos, muita coisa deveria ter mudado. O presente desentendimento sobre o véu mostra que nem tudo foi superado. O que conforta, atualmente, é que muitas mulheres islâmicas lutam pela renovação de conceitos e costumes ofensivos à dignidade feminina. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE

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