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Opinião

Eternizando mem�rias

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ALBERTO ROSTAND LANVERLY * A cada fim de ano, no balanço dos acontecimentos essenciais, é comum destacarmos os mais significativos. Um dos fatos pessoalmente mais marcantes para mim, ao longo de 2003, foi algo que posso rotular como sentimental. Transmite-nos a história de que, certo dia, referindo-se à criação do homem, Platão, o mestre da filosofia grega, afirmou que Deus o fizera inspirado na perfeição de um círculo, sem começo e sem fim, com o símbolo de sua imortalidade. A criatura, contudo, na ânsia de sobrepujar o Criador, tentou modificá-lo ao seu bel-prazer, desencantando o Autor de sua vida que, irado, arremessou uma lança contra a imaginária forma geométrica fraturando-a em incontáveis partes. Desde então, o homem vem lutando para recompor seu próprio círculo com ações individuais. Ao agregar novos acontecimentos a sua trajetória ele define não só a importância da própria existência, como a de toda sua geração, alheio à consciência de que uma sociedade, uma comunidade ou uma Era, sem memória, sem passado, jamais terão um futuro forte, respeitado e que sirva de modelo aos que o sucederão. A Escola de Engenharia de Alagoas, fundada em meados do século XX, vem, ao longo dos anos, colocando no mercado de trabalho profissionais que, em sua quase totalidade, dominam o setor da construção civil do Estado, aptos a brilhar como empresários, mestres, executivos e políticos. Os docentes de há cinqüenta anos conseguiram sedimentar no coração de seus discentes um grande amor pela profissão, os professores que os sucederam tentam manter, com altivez, a chama do ensino, da pesquisa e da extensão, formando engenheiros que têm sido laureados nas mais diferentes regiões nacionais, servindo de orgulho quando, pelo terceiro ano consecutivo, o Curso de Engenharia Civil da Ufal, na avaliação estabelecida pelo MEC, obteve conceito ?A?? como critério de qualidade. Ano após ano, os alunos que logram aprovação no vestibular iniciam uma longa e difícil jornada em busca do sonhado diploma que lhes assegurará, entre outras benesses, o direito de terem seus nomes inscritos no bronze de uma placa de formatura, afixada em destacado local, atestando sua passagem por aquela escola onde aprenderam os mistérios da profissão e desvendaram os segredos das derivadas e das integrais. O Bloco B do Centro de Tecnologia (CTEC) sempre foi desses importantes registros. Ali se enfileiraram os bronzes contendo nomes dos que integraram cada turma de concluintes e seus respectivos mestres, bem como de todos quantos, em um momento de suas vidas, mereceram homenagens dos contemporâneos. Denominada Galeria da Historia da Engenharia em Alagoas, perpetuava para o amanhã um momento da vida de nossa universidade, onde os mais jovens, muitas vezes, encontravam o nome de seus pais. Era um dos pontos mais referenciais do CTEC Guardiã da memória da Instituição a galeria servia, igualmente, como uma chama de otimismo para os mais jovens que, vendo-a, sonhavam com o dia em que seu próprio nome também figurasse em algum daqueles espaços. Mesmo inconscientemente, ele estava agregando algo mais ao círculo de sua existência. O grande desencanto, ocorreu no ocaso de 2003. As placas de formatura e as de homenagens, em sua maioria, começaram, misteriosamente, nas caladas da noite, a desaparecer dos murais onde imaginávamos que venceriam o tempo e sucederiam às gerações. Vândalos, alheios a sua importância histórica e sentimental, as estavam surrupiando para, imaginamos, derretê-las e vendê-las, no máximo, a dez reais o quilo. Primeiro, foram as mais antigas para, cronologicamente, chegarem às mais recentes. A direção do Centro, no desejo de preservá-las, decidiu retirar das paredes as poucas que restaram, referentes às últimas décadas. Resta-nos a expectativa de que seja escolhido um local seguro para nova exposição, a fim de que aquelas relíquias não fiquem esquecidas num depósito mal iluminado de nossa instituição. Para cada um de nós, conscientes do valor afetivo e histórico que possuem, revê-las será, sempre, uma forma de retornar ao desencanto da perda de alguns, durante o ano de 2003. (*) é ENGENHEIRO e PROFESSOR DA UFAL

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