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Opinião

Dez anos

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Patricia Tenório * Acompanhava com o olhar. Apenas. Encantamento, orgulho, bênção. O caminhar, corpinho de menina, moça. Sorriso tão único, alegria, doçura. Já não corria mais entre as amigas, passeava elegante, sussurrava segredos em um ouvido, apontava com o olhar a pequena paixão à outra. Brilhava, Deus cumprira a parte no trato. Seria independente, personalidade forte, mesmo meiga, carinhosa. Filha, tão desejada, querida, sonhada. Lembrava-se do primeiro encontro, no ventre batia outro coração. Sabia, menina, intuição de mãe, quem sabe. Imaginava o rosto, a cor dos olhos, grandes, cachos nos cabelos, feminina, sim, feminina. Raro em um mundo que, aos poucos, as mulheres iam perdendo a feminilidade para afirmar-se, conquistar espaços masculinos. Sábias as que conciliavam. Eram assim, mãe, filha, doces, determinadas, conviviam em paz. Adorava enfeitá-la, brincar feito uma boneca. Pegou o jeito, vaidosa, estilo próprio e ao mesmo tempo tão parecido. O primeiro banho, passeio, ninar ao luar com a Canção da Mamãe Lua. Tão pequenina e parecia entender as palavras, acalmava-se, dormia em seu peito, quente, aconchegada. Não queria que aquele momento jamais terminasse, imensa felicidade. Dez anos. Tão rápido, parecia ontem. Dançavam na sala, giravam e giravam, músicas preferidas, escondidas dos irmãos, não gostavam das melosidades. Um mundo delas, apenas delas. Cúmplices em tudo, alegrias, tristezas, entendiam-se com o olhar. Silêncio quando as palavras eram demais, compartilhavam as perdas, quase siamesas. Sonhos realizados nela, precisara de limites, não poderia transferir desejos. Mas ficava feliz, saber que seria diferente, mais livre, inteira. Lágrimas rolavam no rosto, saudade lhe invadindo, pedindo um tempo ao tempo, estava levando sua menina para sempre. Egoísmo cruel de mãe, pensava. Apego, deveria deixar seguir, o caminho, a busca, felicidade. Agradecia a Deus, apenas. E à, para sempre amada, não só à vinda, mas aos ensinamentos, sorrisos, carinhos, doces beijos, momentos que nunca seriam apagados da memória. Os olhares se encontraram. Amor eterno. Mesma alma em dois corpos. Talvez desavenças, encontros, desencontros. Mas estariam, certeza, nessa vida juntas, testemunhas uma da outra. Incondicionalmente. (*) É escritora

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