Opinião
Dif�cil de acreditar
HUMBERTO MARTINS * Quem tinha alguma dúvida sobre o risco do Brasil ter praticamente uma única opção energética ? em barragens ? deve estar finalmente convencido da necessidade de diversificação: o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) está autorizando o funcionamento de usinas térmicas emergenciais no Nordeste, para evitar problemas de abastecimento de energia, como conseqüência da falta de chuvas na região e do baixo nível dos reservatórios. Por irregularidade de chuvas, volta o sistema de abastecimento de energia a apresentar as mesmas vulnerabilidades ocorridas há cerca de dois anos ? durante 2001 ?, quando o crescimento econômico do País foi comprometido. À época, a falta de investimentos de linhas de transmissão e outras obras foi parcialmente responsabilizada pela crise, o que deverá novamente ocorrer. E, mais uma vez, a administração federal anterior deverá ser responsabilizada, porque ninguém de bom senso poderá admitir que em apenas um ano a atual equipe governamental seja culpada pela falta de investimentos no setor elétrico. Como a colossal dívida externa brasileira obriga o País a limitar os investimentos nos próximos anos ? provavelmente nas próximas décadas ? caberá ao consumidor pagar a conta das despesas que terão que ser feitas para fortalecer a geração energética. Essa situação só se normalizará a longo prazo, quando a participação de capitais privados nacionais e estrangeiros no setor for significativa. Tal advento só ocorrerá quando houver regras claras e definitivas sobre a remuneração desses capitais, o que até agora não ocorreu. Atualmente, o consumidor paga R$ 0,0085 por quilowatt/hora (Kwh) na conta de luz, para custear as térmicas que até agora não foram ligadas. É provável que com a entrada no sistema de 700 megawatts (MW), dos 1.400 MW de capacidade instalada na região, essa capacidade instalada das usinas térmicas nordestinas, falta gás para abastecê-las. Se houver aumento do consumo de gás, em função da emergência que se desenha, faltará gás para as indústrias, razão porque a opção é o diesel, mais caro. Mesmo que as precipitações pluviométricas voltem a ocorrer em maior quantidade, devolvendo aos reservatórios um nível capaz de assegurar tranqüilidade, a dúvida que retorna sobre a capacidade do Nordeste dispor de energia suficiente para suas atividades econômicas, já é prejudicial. Qual o empresário lúcido que decide investir numa região que não dispõe de energia suficiente? Cerca de 80% da capacidade instalada das usinas emergenciais estão no Nordeste, o equivalente a 1.400 MW contratados. O abastecimento energético do Nordeste depende do nível das águas do Rio São Francisco. É numa situação dessas que ainda se pensa em fazer, de maneira precipitada e sem maiores estudos, o desvio das águas do chamado ?rio da unidade nacional?. É difícil de acreditar. (*) É DESEMBARGADOR DO TJ/AL