Opinião
Bons alagoanos
MARCOS DAVI * Quando nos mudamos da Pajuçara para o Farol, fomos morar na rua Comendador Palmeira. Chegamos a uma região repleta de meninos mais ou menos da mesma idade, que nos proporcionavam renovadas brincadeiras após as aulas no Colégio Batista. Muitos deles estão aí, ativos na vida alagoana, como o arquiteto Mário Aluísio, o cardiologista Flávio Loureiro e o Eduardo Bonfim. Daquela época, uma recordação permanece na memória: certo dia um fiel viu a imagem de uma santa em um pinheiro no jardim de uma das casas próximas. Logo, a notícia se espalhou. De repente, as romarias começaram. As multidões se renovavam dia e noite no fervor religioso. Rezas, ave-marias, cânticos inflamados... Logo, os moradores da casa da aparição, estressados e insones, se escafederam, deixando o imóvel aos cuidados da santa. A residência vizinha foi quem mais sofreu. Peregrinos vindos de toda a região nordestina, nas mais precárias condições, para ali se dirigiam em busca de água, alimento, uns trocados, enquanto, naturalmente, a santa não começava a operar os seus milagres. Repetidas vezes, um dos seus moradores, um adolescente curioso e inquieto, saiu para o colégio em jejum, porque ao acordar deparou-se na cozinha com quatro ou cinco romeiros famintos, que sob a complacência do seu pai (um solidário e digno funcionário dos Correios), engoliam famintos o seu café da manhã. Consta que um certo dia, quando da chegada de um grupo exaltado de peregrinos de Juazeiro, houve uma aparição especial da santa, causando um frêmito de exaltação na multidão que, em movimento compulsivo e ululante, dirigiu-se para a imagem, derrubando o muro das residências e causando pânico aos moradores. A situação só se normalizou com a chegada dos bombeiros e a milagrosa ação das mangueiras de água esfriando a exaltação dominante. Garante-nos o Oráculo da Colina, que a obsessão doentia do Mário Aluísio pelas belas formas vem do choque infantil que teve com a derrubada daqueles muros; a excelência do Flávio Loureiro em cardiologia, com o quase infarto daqueles moradores e a angústia existencial, infinita preocupação com o destino das massas do Eduardo Bonfim (aquele menino que jejuou), originou-se daquele trauma decorrente da visão do povo perdido à procura de seu destino. Hoje, vê-se que o Mário Aluísio teve oportunidades para demonstrar todo o seu talento, o que só temembelezado a nossa terra. O Flávio Loureiro é um dos mais notáveis cardiologistas caetés. Apenas o Bonfa ? apesar de sua folha de serviços prestados ?não estava tendo oportunidades compatíveis (apesar da Secretaria de Cultura) com a sua capacidade política e intelectual. Sua ida para o Ministério da Articulação Política com Aldo Rebelo é prestigiosa para todos os alagoanos. Além do que estes bons alagoanos são homens de paz, que além de suas atividades profissionais convivem muito bem com as nossas melhores tradições, no que são foliões consagrados do Pinto da Madrugada e estarão curtindo o frevo no seu aniversário, neste domingo. (*) É MÉDICO