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Harpa e viol�o

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RONALD MENDONÇA * Não foram fáceis os primeiros tempos dos cristãos. A morte do Galileu sob as crueldades próprias da época não arrefeceu o ânimo dos seus seguidores. Com efeito, naqueles ásperos dias das catacumbas e dos catecúmenos, qualquer vacilo terminava em crucificação ou pasto para fera. Um dia, um convertido foi parar no Coliseu lotado de gente. O desafio para alcançar a liberdade era escapar de um leão faminto. Enterrado até o pescoço, o crente vislumbrou alguma chance de espantar a fera se conseguisse morder seus leoninos testículos, única peça anatômica vulnerável. O bom cristão até que tentou: no exato momento em que o leão ameaçou o salto, o homem, num gesto ousado, baixou a cabeça e logo a reergueu apontando a boca para os gigantescos penduricalhos. Nesse instante, a platéia, percebendo a marota manobra, urrou irada: ? Lute limpo, cristão safado!? Ao lado desse fantasioso relato, há outros menos inverossímeis que nos falam de um certo Nero, imperador romano, que um dia incendiou Roma e teria responsabilizado os cristãos. Até hoje seus biógrafos discutem se seria verdadeira a versão de que enquanto a cidade ardia em chamas o malvado tocava harpa para os amantes. É claro que não há qualquer relação entre as chuvas que castigam o País ? e o nosso Estado em particular, nas últimas três semanas ?, e o célebre incêndio de Roma no século I. Não, não se pode responsabilizar qualquer viés religioso ou político por um fenômeno natural e cíclico. Tampouco deve ser creditado a algum dirigente menos equilibrado a encomenda de todo esse aguaceiro. Já as conseqüências... (A sensibilidade do genial Tom Jobim enxergou poesia no desmantelo das enchentes, imortalizando essas chuvas de verão com sua ?Águas de Março?). A esse respeito, há um lado confortador que é saber que o nível dos rios nos dá uma certa garantia de que não se terá racionamentos de energia. O sertanejo também se mostrou otimista com suas barragens esborrando. A mesma coisa já não pode dizer o morador da periferia das cidades maiores, onde desabamentos e corredeiras artificiais levam tudo o que o sujeito possui. Nesse momento, duas certezas: 1) As chuvas ? que ainda ameaçam, provocaram um estrago que carece de um melhor dimensionamento; 2) O governo federal (mais uma vez) é lerdo e pouco criativo quando se trata de planejar e executar programas de ajuda à população. Quanto à foto do presidente Lula tocando violão, enquanto o Brasil está submerso, está mais para Nero do que para Tom Jobim. (*)é Médico e professor da Ufal

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