Opinião
Igreja e pol�tica
| CÔNEGO HENRIQUE SOARES * Estamos num ano eleitoral. Em Maceió, a Igreja lançou uma pequena cartilha com a finalidade de ajudar o nosso povo no processo de inclusão cidadã e, consequentemente, na capacidade de votar de modo digno e consciente. É a quarta cartilha elaborada pela Arquidiocese. Mas, será essa uma competência da Igreja, envolver-se em política? Vou procurar dar resposta esta questão neste artigo e no próximo. O papa Bento XVI, na recente encíclica Deus caritas est, explicou: ? A justa ordem da sociedade e do Estado é dever central da política. Um Estado que não se regesse pela justiça, reduzir-se-ia a um bando de ladrões. Assim, continua o papa, a justiça é o objetivo e a medida intrínseca de toda a política. A política é mais do que uma simples técnica para a definição dos ordenamentos públicos. A sua origem e o seu objetivo estão na justiça, e esta é de natureza ética. Assim, o Estado defronta-se inevitavelmente com a questão: como realizar a justiça aqui e agora? Mas esta pergunta pressupõe outra mais radical: o que é a justiça? Isto é um problema que diz respeito à razão prática; mas, para poder operar retamente, a razão deve ser continuamente purificada, porque a sua cegueira ética, derivada da prevalência do interesse e do poder que a deslumbram, é um perigo nunca totalmente eliminado. Neste ponto, política e fé tocam-se. A fé tem a sua natureza específica de encontro com o Deus vivo ? um encontro que nos abre novos horizontes muito para além do âmbito próprio da razão. Ao mesmo tempo, porém, ela deve ser força purificadora para a própria razão. A Igreja não tem poder sobre o Estado ou sobre os políticos, mas tem o dever de contribuir para a purificação da razão e ajudar a fazê-la compreender e enxergar aquilo que é justo. Então, a justiça ? em sentido largo de bem-estar global da sociedade ? é a finalidade última do agir político. Neste sentido, todo cidadão é e deve ser político. Mas, saber o que é ou não justo, é uma questão ética. Aqui entra a Igreja: com a luz da reta razão humana e a luz ainda mais luminosa do Evangelho, ela se propõe dialogar com a sociedade na tarefa de discernir entre o bem e o mal, a verdade e o erro, a luz e a treva. Sem uma clara escala de valores, para onde iria uma sociedade? Para que serviria a política? Para onde iria uma carruagem com potentes cavalos, se o cocheiro não soubesse que caminho tomar? É a questão do rumo, dos valores, do sentido, das prioridades que interessa à Igreja. Continuaremos. (*) É sacerdote católico.