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O lobo e o carneiro

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RONALD MENDONÇA * Infelizmente, a Unidade de Emergência Armando Lages voltou a freqüentar a imprensa pelo viés menos lisonjeiro. Com efeito, há exatos seis dias, extensa reportagem publicada por um dos jornais da cidade expôs com estarrecedora crueza o desmantelo de dois dos mais importantes hospitais de Alagoas: a própria UE e o seu vizinho, Hospital José Carneiro. Aliás, louve-se o comovente desabafo do diretor, médico Marcos Sampaio, que não economizou palavras. Afogada em problemas que vão desde a superlotação até a obscena taxa de mortalidade, sem contar com a precária falta de higiene (cadê a Vigilância Sanitária?) e graves questões éticas, a querida UE parece ter chegado ao fundo do poço. Dentre as inúmeras mazelas que comprometem o seu funcionamento, sem dúvida, a mais curiosa é a queda-de-braço entre o diretor da UE, Marcos Sampaio, e Carlos Lôbo, diretor do Hospital José Carneiro. Imagine o leitor que esses dois hospitais pertencem ao Estado, têm paredes comuns, são, por assim dizer, siameses. E, no entanto, segundo Sampaio, Lôbo bate o pé negando-se a internar pacientes nascidos do seu irmão gêmeo. É possível até que esses diretores estejam interessados em preservar suas instituições. Mas, e os doentes, o que têm com essa dicotomia? O pior de tudo é que o estopim desse confronto ? a suspensão do fornecimento de refeições ? põe em xeque a menina dos olhos da Uncisal, o seu hospital-escola. Não é fácil admitir que os pacientes do José Carneiro precisassem dividir a bóia da famélica UE. A esse respeito, os alagoanos já tiveram oportunidade de ler a lúcida análise do doutor Ib Gatto Falcão, profundo estudioso das questões de Saúde do País. Se as autoridades governamentais tivessem juízo, correriam para o doutor Ib lhes ensinar o caminho das pedras. A bem da verdade, não se pode dizer que essa bagunça seja apenas uma fase ou então obra fracassada de uma só administração. É uma longa história de 30 anos atrás, quando a Saúde foi sendo entregue a uma horda de incompetentes e visionários que liquidaram com a medicina curativa. Daí essa herança incômoda (a UE é a ponta de um gigantesco iceberg) que sucessivos governos vêm empurrando com a barriga da obtusidade. É óbvio, pois, afirmar que a superlotação da Armando Lages decorre do vil pagamento que o SUS oferece. Nesse momento, o hospital particular que se aventurar a receber os doentes vindos da emergência, vai para a porta da Catedral viver da caridade pública. No fim de tudo, uma nota pitoresca: na contramão da lei da selva, pela primeira vez, um lobo protege um carneiro. (*) é Médico e professor da Ufal

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