Opinião
Perante a vida
DOM FERNANDO IÓRIO * Vivo diante da vida. Da vida que explode nas folhas e nos frutos das árvores. Da vida que eclode do botão, da pétala de uma rosa. Vivo diante da vida que se manifesta no instinto dos animais, no trilar dos passarinhos, no nadar dos peixes, singrando as águas encapeladas do mar. Infelizmente, ando na vida: sem tempo de parar, sem tempo de escutar, sem tempo para os amigos, sem tempo para falar comigo, sem tempo para gostar de mim. Que vejo, circundando a vida? O tempo, velozmente, correndo, voando, sem saber para onde me leva. A vida perdura em um mundo de pressa, sem tempo para a prece. Torna-se, por isso, a vida uma disparada, uma flecha rápida, um joguete em busca de um endereço incerto. Entretanto, na agitação, na pressa, no barulho, na vida sem compromisso, na depressão, na aflição, no enervamento, é necessário que se viva em profundidade, que se controlem os pensamentos, que se planeje a ação, que se recupere a paz, na tentativa de atingir o mais íntimo do ser para sintonizar com a vida que merece ser vivida, quando se sabe para onde vai. O importante é amar, equilibradamente, a vida; é perseverar na esperança, a última que se finda. Aposto na vida, porque, ao dar-lhe um endereço certo, nela eu me realizo, como ser humano, cidadão do universo. Quandoa sobrancelha da tarde prepara o sono do dia ? eu amo a vida; quando as sombras da natureza ternurizam os passos da noite ? eu amo a vida; quando a pálida aurora prepara o despertar vigoroso do dia ? eu amo a vida; quando os dedos luminosos do sol metamorfoseiam as campinas e os vergéis ? eu amo a vida... Sim, eu amo a vida, porque fui criado para ser, cada vez mais, gente no lugar onde me encontro, por onde passeia a vida, dentro do tempo implacável que me vai marcando com o sinete de sua passagem. Por tudo isso, eu amo a vida. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS