Opinião
Risco do deserto
Embora o fenômeno de desertificação no Nordeste brasileiro não seja novo, somente no ano passado é que o assunto voltou a ser tratado no âmbito do governo e pela primeira vez o problema foi colocado no orçamento da União. Existem estudos a respeito há mais de 20 anos (um dos pioneiros a pesquisar este problema foi o ecólogo pernambucano José Vasconcelos Sobrinho) e desde 1994 foi assumindo o compromisso governamental de se elaborar um Programa Nacional de Combate à Desertificação. Segundo o próprio governo, o Brasil é o único dos grandes países da América Latina que não possui um plano específico neste campo. As implicações de ordem política e social são claras. Além da perda da capacidade produtiva do solo, a desertificação provoca deslocamentos indesejáveis de populações em busca de alternativas de sobrevivência. Aqui em Alagoas, além dos especialistas, poucos sabiam que o Estado pode ter 43% do seu território transformado em deserto. Onde esse fenômeno já se concretizou, como em determinadas regiões dos Estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Piauí, ficou comprovada a existência da relação direta entre o avanço do processo de desertificação e os baixos níveis do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O aparente descaso tem uma fundamentação teórica. Como os recursos públicos tradicionalmente são escassos para atender as demandas sociais, seria necessário estabelecer prioridades, ?focar? onde melhores resultados poderiam ser obtidos. Em outras palavras, como o combate à desertificação tem um custo muito elevado, é mais vantajoso adotar ?políticas públicas compensatórias? que amortecem as tensões e ao mesmo tempo tornam seus beneficiários reféns deste modelo assistencialista. Correndo contra o atraso, Alagoas tem um projeto base voltado para 18 comunidades do semi-árido. É pouco, mas já é um primeiro passo ? e se o governo federal colocar como prioridade o combate à desertificação o Orçamento destinará (mais ou menos) recursos para este fim. Aí, nesse caso, esturricadas áreas de terra alagoana poderiam ter alguma esperança.